18.

As palavras à flor da pele, em que guarda um silêncio vergonhoso que nos revela a distância de tudo. A pressa, o momento de entrar na sala de reunião, esperar pelo que não sabemos ou sabe-se lá o quê. As pessoas caminham por uma irrealidade no decorrer dos dias. Vivem e não vivem. Caminham com pensamentos de curto prazo, pensamentos como celulares pré-pagos, onde há a pressa de ser ouvido, onde há a pressa de falar. Uma irrealidade opaca e ao mesmo tempo opressora, descartável. Não quero isso pra mim, não quero fazer parte desse sistema angustiado e insone. Essa ausência é pior que a ausência que conhecemos, é uma espécie de solidão no meio de tantos, esbarrando nas pessoas sem desviar, buscando a clemência, o perdão, a chave do paraíso. Acho que vou sempre preferir as tardes com gosto metálico na boca, ouvir o resvalo de minhas memórias e continuar contra essa irrealidade maldita dos dias, onde tudo cresce quieto, mesmo que em meu peito haja um vazio incompreensível, enfim, quieto.

G.C.

17.

Meu atonal do silêncio, para você deixaria nesse livro tudo que senti, deixaria tudo que pude ver e relatar, mas você sabe que muito se perde depois da escrita. O verdadeiro sentimento jamais será desvendado. Somos paisagens isoladas no meio das horas. Os livros que escrevi me parecem repetitivos igual a porra da vida, mas eles me enchem as mãos de alguma coisa que não sei explicar e que lentamente choram. Quantas vezes fui triste, quantas vezes fui dor, quantas vezes fui um coração que levanta toda manhã em busca de uma resposta satisfatória para o que me faz pensar e sofrer. Cortaram as asas que eu não tinha e a vida se apagou lentamente com o decorrer dos anos, o resumo do universo num espaço amarelo e profundo do papel. E você que me lê é mais uma paisagem isolada que poderá até sentir de algum modo o que senti e que entranhará em seu peito aquela distância de nós mesmos. Seremos a reclamação dos que amam destemidamente mesmo que sejamos o contrário disso. Explicaremos a grandeza a quem não sabe escrevê-la, mas que pode senti-la de um jeito que não machuca igual machuca em nós. Seremos atonais do silêncio, todos impossíveis e que se perdem com pressa, seremos nossos próprios fantasmas amargurados de tanto que sentimos e de como sentimos. E deixarei dentro desse livro o impossível do rumo silencioso, às vezes com alguma música triste que poucos conhecem. Escreverei em meu atonal de treva, escreverei em meu atonal de silêncio as palavras que cantamos no meio das horas amareladas do tempo.

G.C.

15.

Depois daquelas horas juntos, pensava dias depois, caminhando sozinho pelas ruas. Pensei durante muito tempo que deveria ter dito alguma coisa que não disse. Ao escrever, agora, pensei na urgência disso, de chegar ao seu pé e dizer qualquer coisa. Dizer-lhe qualquer coisa como se fosse a última, numa redenção magnífica e primordial.

No caminho para o trabalho, durante muitas vezes, desliguei o ouvido de fora pra ouvir você todas as manhãs. Pensei naquela intimidade que o som nos traz do interior de nossas ruelas. Nessa intempestividade de haver a matéria que me faz, nessa vida que deu o dom (pelo menos alguma coisa!) da reflexão, estação após estação de metrô. Ao chegar, acabo dirigindo-me ao boteco vagabundo pra tomar um café. Percebo que tudo é radicalmente solitário. Tudo está caído sobre outro mundo que é impossível. Fecho a mão dentro dos bolsos num ritual patético e percebo como é belo este movimento que nos leva ao chão. Imagino que agora você esteja repousando num sono quase inconsciente, e aqui vou pela rua em direção ao trabalho. São nove horas e penso nos seus gestos absolutos. Sinto isso de uma forma quase desesperada, com a mão dentro dos bolsos, numa gritaria em silêncio.

G.C.

Poema sem nome [8]

tu sabes de meu silêncio
senhor de todas as coisas
senhor dos que creem em ti
mas eles não sabem de teu
silêncio ou o ignoram na
espera inútil de teus segredos
espera porca de teus medos
e de teus sonhos infantis

odeias todos teus filhos
e ainda espera deles
os ritos tão inúteis
brinca
isso
brinca com a fé
e traga abandono
miséria
e nisso todos rezarão mais
chorarão mais e entregarão a ti
o registro sério do destino
dos mortos
e o alinhavar dos vivos

o silêncio
precede a fé?

teu silêncio
prece a dor?

e tu que ignoras
teus filhos
na espera dos despertos

tu que não existes
vestido de engodo
por muitos dos supostos
mensageiros de suas leis
leis essas sujas de qualquer
coisa que vai contra o real
amor
a verdadeira fé

e a prece não será atendida
de qualquer jeito
a oração cega de teus
eleitores
engolidos pelo silêncio

[tão terrivelmente só]

G.C.

Poema sem nome [5]

castiga-nos com teu silêncio
com sua bonança inexistente
de esperança

da palavra que não existe
e que fazem a promessa
a colheita
a promessa que nunca fui

e nós
homens
mulheres
burlistas de tua voz
ditando a fé de
tuas migalhas

e em teus olhos que não
existem
não posso mais crer
porque o som da paz
será no silêncio
no silêncio em que não
te seguirei

G.C.