Poema sem nome [11]

procuramos marcar o tempo
fatiar os anos
meses
dias
horas
segundos
e sabe-se lá mais o quê
e o que sobra não tem mais
para o amor
e viramos restos que passam
os dias
procurando a pessoa
que nos tire o vazio
porque a lucidez foi
penhorada
entregue aos senhores
do seu tempo
e somos isso
a esperança depositada
no grande Girassol
que rasteja
pisada
por tanta gente
apressada
fatiando sua vida em tempos
precisos
e também inexatos
em busca da glória
amorosa
profissional
econômica
mas sem acreditar
no meio
nesse meio que abre ferida
e que no fim é aprisionado
por qualquer coisa
que você jamais terá controle

amores e restos de gente
que rastejam

G.C.

13.

Depois de tantos anos acabamos aprendendo alguma coisa com a ausência. Aprendi a escrever menos, aprendi a prestar mais atenção na cartografia dos olhos. Os sinais que deixamos – com o tempo – pra lá e não sabemos mais como interpretar. Tudo é, depois de anos, um catálogo, uma mancha nessa cartografia. E caímos para cima, do teto que encaramos antes do sono, nas linhas que machucam a parede e sopram seus tempos para uma fuga. O sonho que durou dez anos em alguns minutos, da última tragada denunciada na aquarela que paira no ar. Sim, a ausência pode ser traduzida em bilhões de esferas e idiomas e ainda assim quando bate aos olhos, consciente, guarda uma beleza que só pode ser extraída da própria vida que queima.

G.C.