Poema sem nome [11]

procuramos marcar o tempo
fatiar os anos
meses
dias
horas
segundos
e sabe-se lá mais o quê
e o que sobra não tem mais
para o amor
e viramos restos que passam
os dias
procurando a pessoa
que nos tire o vazio
porque a lucidez foi
penhorada
entregue aos senhores
do seu tempo
e somos isso
a esperança depositada
no grande Girassol
que rasteja
pisada
por tanta gente
apressada
fatiando sua vida em tempos
precisos
e também inexatos
em busca da glória
amorosa
profissional
econômica
mas sem acreditar
no meio
nesse meio que abre ferida
e que no fim é aprisionado
por qualquer coisa
que você jamais terá controle

amores e restos de gente
que rastejam

G.C.

Poema sem nome [10]

certamente não lembrará pois foi há tanto tempo
e o que aconteceu pode
não ter significado nenhum
para você
mas para mim sim

aquele garoto triste
eu não sei mais quem era
se era eu
ou se era outro eu temporário
mas lembro dele com um
amor infindável
do mesmo amor de um pai
ao embalar seu filho noite
adentro
no nascimento
na morte
porque fui esse garoto antes
de nascer
de viver
e de tudo que se seguiu
dentre tantos anos

você partiu
eu fiquei
e isso foi um sinal
pra mim
das coisas que
aconteceriam
dali por diante

o destino que nunca
acreditei
me pregou essa peça
porque os tristes de coração
padecem disso

vislumbrei nosso instante
que para mim significou
uma vida por muito tempo
a porta semiaberta para
que eu entrasse
já não sabia
[naquele momento]
a busca impossível
dos pormenores
da vida que tive
completamente
fodida ao te ver

ao piano
tocando aquela
música que
não me atrevo
a dizer o nome
da melodia devastada
de solidão
da leitura concentrada
do seguimento matemático
das notas
era além disso
era música na ponta
dos dedos
do sentimento de covardia
de abrir o coração
de reconhecer-me
naquela melodia
todo um quebra cabeça
de amor
de complexidades
sem nexo algum

lembro da exposição que
aquele momento me causou
toda minha fragilidade
minhas fraquezas

tristezas
defeitos
a sensibilidade brutal
que essa urgência
me causou
[e que ainda causa]
de tudo que me fazia
criar até a dor física
surgir galopante
da sedução que tentei
repetir sozinho
músicas
cartas
projetos de poemas
pinturas
qualquer coisa

apareceste devagar
em minha vida
e foi assim que tudo
fez sentido naquele momento
de quando minha solidão
foi emparedada e de
quando a música de certa
forma me salvou
à minha maneira

meu boicote pronto
florido
verdadeiramente
verdadeiro

e lembrei por anos dessa
cena incrível
da mulher ao piano
que me pediu para
não continuar
que ninguém jamais
havia feito tal melodia
nem aqueles que amam
loucamente
desesperadamente
como se isso fosse realmente
amor
mas sim desconforto da alma
falta de coragem de viver
algo saudável em nossos redores
nossas peles
e sofri com nossa ausência
e me puni severamente
ao longo dos anos por isso

e tu jamais soube da significância

que para mim teve aquele momento
do amor que me dedicou naquela
transbordada melodia
do desparamento
da vida
da distância infinita
do toque entre peles

certamente não lembrará
mas eu sim

a vida passou tão depressa
tudo foi há tanto tempo
numa velocidade tão
incrível
contornos de memórias
fustigadas
desbotadas
que teimam em lembrar
mesmo no apagamento
e nos levam para todos
os lados
como troncos podres
na corredeira débil
a viagem certeira
para a queda

para o aprisionamento
do que resta dos dias

não dormi por muitas
noites
ao longo dos anos
porque o peito doía
era sempre o peito
essa ilusão fodida
mágica e
tenebrosa

era raro uma noite em que
dormisse antes das onze
porque o quarto
[suas paredes]
falavam comigo
as coisas dentro dele
os desenhos que o destino
impôs à parede num rito
futurístico que para mim
faria sentido naquele momento

e não
não era eu a fazer o sentido das coisas
era a vida

com seus muros esperando
sua mensagem esperando
algo para poder crer
para poder crer novamente em
deus
em qualquer coisa
para poder ver cor
nas ruas novamente
vida em preto e branco

[só queria me sentir protegido]

queria uma mensagem sua
queria poder abrir minha porta
pra você também e que a adentrasse
afundada em meus transbordamentos
e que arrancasse de vez minha tristeza
para nunca mais precisar escrever

por que lembrei de ti?
por que lembrei daquele instante?
por que faz sentido pra mim e não
para você?
por quê?

tu me ensinou a verdadeiramente
criar naquela tarde
e tu veio até mim para isso
e eu quis mais
de meus dramas burlescos
de nosso fim arrancado
por deus
do ordenamento de ter
que criar para espantar
meu desespero

ordem de partida
para a guerra de
nós mesmos

você esteve viva em mim
por anos
corri para sua trincheira
em tentativas falhas
sempre morria
todos os dias
numa razão devastadora
de lutar contra o óbvio
mas orgulho-me de
dizer que você foi meu
farol

mas que agora renuncio
para poder continuar
vivo

da cena de dar alguns passos
de tirar os sapatos para não
fazer barulho enquanto tocavas
de me afogar em sua imagem
ao teu lado
absurdamente ali
da última vez que te vi

e te dizer o quanto era
importante e do quanto
precisaria de momentos assim
[só que não disse nada]

[aprendi algo contigo que jamais
esquecerei]

levarei esse episódio
[e só esse]
comigo para sempre
teu bem querer
quem sabe seu amor
mais importante pra mim

do que foi para você
de como compartilhamos
nossa incapacidade de jamais
dizer um
eu te amo
de como lamentei isso
porque você foi uma parte
de mim
que queima
que dilacera durante as madrugadas
e choro desesperadamente
porque queima
porque dói
porque fode com tudo
guerra perdida
guerra que agora abro mão
e acho que fui até longe demais
muitos teriam desistido antes

toda noite há um redemoinho no teto
são nossas imagens rodando no gesso
de como foi bom o pouco que tive

lembra daquela tarde?
[obrigado por ter cuidado de mim]

G.C.

Poema sem nome [9]

I

precisarás do tempo necessário
mesmo que para ti ele seja
infinito e atemporal
o tempo
sim
o tempo com aquelas roldanas
gastas
com nacos arrancados conduzidos
em seu giro eterno
por arame farpado
fazendo nascer a luz dos postes
em que choraremos
e mijaremos a obstinação
pueril e consequente de nossas
quedas

II

tu te curvarás ao espelho procurando
a fenda no rosto
e isso será com urgência
com desespero porque a roldana girou
muito mais do que havia previsto
seu curvar será a subjugação à vida
e nela estará costurada a cicatriz
uma escolha sem poder escolher
como um quadro de Pollock

III

pararás para ler um livro
e dirá que aquilo é literatura
que aquilo é um poema
e o ar será aspirado com mais força
e infinitos estilhaços desses escritos
atravessarão seu coração
e faremos de tudo pra não morrer
nessas palavras

IV

teremos nosso consolo
em qualquer fuga dentro da cidade
o álcool
o fumo
as drogas
os livros
a areia do gato que precisa
ser trocada
mas no fim nos restará alguma coisa
restará uma coisa entre tuas mãos
feridas que ainda correm
que ainda não viraram cinza

V

a voz do outro lado
da aba de trabalho
dirá coisas apenas
que enervarão a polaina
e tu quererás que gire mais rápido
que gire violentamente
até que tudo seja um eco
de uma resposta sem sentido

VI

o recado que chega pelo celular
a mensagem que mudará tudo
ou que será apenas alarme falso
ouvir tua voz do outro lado
dispersando a chuva
dispersando a mensagem derradeira
de despedida definitiva
minha
sua
nossa elegia de metal
e plástico

VII

tudo será uma lembrança que em
alguma ocasião será retirada do
arquivo-morto de tuas próprias
memórias
das memórias que fazem sol
das orações pretensiosas
que virão com sons na noite
com formas que não sabemos
que partem o coração

VIII

relembraremos nossas conversas
e verei seu rosto novamente
mexendo os lábios
arqueando as sobrancelhas
com a certeza de sua palavra
o peso que ela fez em nós
e que se espalham na recordação
marcada na pele
nossa única certeza de sua
evocação
quase o toque real que haverá
sempre de ser quase

IX

teremos aquela música para
estragar quando tudo se for
nossa impressão de que o tempo
parou ali naquela melodia
ali a roldana não gira
quanta ironia

X

girem
girem
pequenas roldanas encrespadas
pois sempre haverá literatura
pra ser arrancada de sua barbaridade
a inútil promessa de que
chegaremos a algum lugar dentro
da gente
o fim de todas as cidades que
moram dentro de nós

G.C.

Poema sem nome [8]

tu sabes de meu silêncio
senhor de todas as coisas
senhor dos que creem em ti
mas eles não sabem de teu
silêncio ou o ignoram na
espera inútil de teus segredos
espera porca de teus medos
e de teus sonhos infantis

odeias todos teus filhos
e ainda espera deles
os ritos tão inúteis
brinca
isso
brinca com a fé
e traga abandono
miséria
e nisso todos rezarão mais
chorarão mais e entregarão a ti
o registro sério do destino
dos mortos
e o alinhavar dos vivos

o silêncio
precede a fé?

teu silêncio
prece a dor?

e tu que ignoras
teus filhos
na espera dos despertos

tu que não existes
vestido de engodo
por muitos dos supostos
mensageiros de suas leis
leis essas sujas de qualquer
coisa que vai contra o real
amor
a verdadeira fé

e a prece não será atendida
de qualquer jeito
a oração cega de teus
eleitores
engolidos pelo silêncio

[tão terrivelmente só]

G.C.

Poema sem nome [7]

entre a tormenta e os muros
que construí para evitar
qualquer coisa
coloquei você ali
do amor desesperado
feito de palavras
que seduzem a razão
e aliciam os olhos
em busca do toque
dos livros que coloquei na estante
juntos
unidos
em busca da simbiose
que não tivemos
para que se amem
e se atraquem desesperadamente
de uma maneira que nunca
consegui

G.C.

Poema sem nome [6]

rogo à ti
para não morrer
nos vestígios do que fomos
nas memórias com nossos
pés descalços na água

encontro-me no que
não posso ser
perco-me nos locais
que nunca fui
a nuvem
que alimenta
nossos sonhos
que não
foram

meu girassol

G.C.

Poema sem nome [5]

castiga-nos com teu silêncio
com sua bonança inexistente
de esperança

da palavra que não existe
e que fazem a promessa
a colheita
a promessa que nunca fui

e nós
homens
mulheres
burlistas de tua voz
ditando a fé de
tuas migalhas

e em teus olhos que não
existem
não posso mais crer
porque o som da paz
será no silêncio
no silêncio em que não
te seguirei

G.C.

Poema sem nome [4]

somos a traição de nós mesmos
somos descalços para o falso
das ideias despedaçadas de uma moral
duvidosa e cruel
das hordas alheias que maltratam
o pensamento

dos anos que urgem e se proclamam
sempre melhores
porque o homem suporta o peso
do existir e se adapta a isso
porque sempre é possível um
pouco mais
sempre é possível arrancar ou forçar
um pouco mais

sempre um pouco mais
das possibilidades impossíveis
da chuva que cai pra cima
das coronhadas de amor dos pesadelos
da hipocrisia que escandaliza com o amor
e suas pernas quebradas
da paz alçada com sangue
do amor sincronizado com a televisão
e que dá ao amor outra sublimação de amor
e que vira contramão da contramão de amar
e que todos choram e aplaudem como verdadeiro
igual num final de filme em que os dois
ficam juntos

tornamo-nos mártires dessas situações
que viram alento
que viram conforto para mais um dia
com nossas orações aos seres de plástico
de gesso
de elegia floreada num mundo
tonto
vazio
e chinfrim

nossos deuses que dizem o que os
deuses dizem
das mensagens falsificadas
no telefone sem fio
sem origem
sem destino
que panfletam as virtudes
que devemos comprar no celular
com seus ditos e ritos patéticos
de passar o número do cartão
e ter nossas borboletas que amanhã
estarão mortas
e diremos isso para todos
para que consigamos alcançar aquilo
que jamais teremos

sua vida
isso mesmo
sua vida
porque sua vida não é sua
não nesse mundo
porque somos atirados
na nebulosa
que vira misticismo
– destino? –
da enganação de que
vivemos na lama
obra homônima
da tristeza
que é a constatação pura
e simples de que não vivemos

[somos passagens traiçoeiras
que não suportam a ausência]

G.C.

Poema sem nome [3]

a palavra que não vira gesto
que fica presa na boca e nos olhos
e dos olhos que nascem a tristeza
que captamos na escrita
a escrita que faz nascer o
amor como forma de rótulo
de algo que destrói com suas
vertes corrosivas
a nossa consagração do gesto
do amor que fica preso à boca
e que vira uma relíquia do olho

G.C.

Poema sem nome [2]

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão
em mensagens
e-mails
e bilhetes que amassaremos e
que jogaremos em qualquer lugar
e você que amou desde a primeira
mensagem
sua primeira obra de arte
seu livro
sua música
sua pintura
sua dança
e que nunca soube
de fato seu nome
você sempre correu
de volta pra pegar o bilhete
amassado
e não sabia que escrevia
apenas sobre si mesmo
apenas sobre si mesma

e na denúncia precisamos
nos proteger de nós mesmos
e daquilo que não entendemos
e surgirá disso o corte
que deixará os olhos a ermo
registrando mais uma vez
e sempre mais uma vez
a dor e a solidão
de escrever e não ter a resposta
desnudada

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão

G.C.

Poema sem nome [1]

nada pode ser mais silencioso
que o tempo que passa dentro
da gente
sua pedra sobre a lápide
e a sinfonia que vem depois
com o vento
e a lembrança irmã que é
seu som ao tocar as árvores
que fazem os olhos mudar o tempo
e nos faz saltar a luz que perpassava
quieta e fleuma

e o tempo nos agride
e o tempo nos cala
e faz nosso interior
um deus sem seguidores
nas quinas e cantos embolorados
numa órbita apátrida de nós mesmos

e o tempo segue fielmente
calado e sincero
e a vida vai embora
sem som

e o tempo nos cala
e guardamos coisas
dentro da gente
Leuconoe
igual o nosso planeta oculta
o que virá a nos corroer em breve

o tempo e seu silêncio
semelhante às músicas que
ficam na mente
gritam em silêncio
que só é desvendada pelo olho

o tempo que escorre pelo olho
o tempo que escorre pela pele
o amor que escorre na cantiga
cada dia menos cantada
o desespero final que busca
o eco

e sinto dentro de mim
Leuconoe
que não sou filho do tempo
porque o tempo foi um
pai ausente comigo
quando ainda no mais
imerso som que poderia
ser uma vida ou uma
sinfonia
o tempo nos desfez

G.C.

1.

Dói saber que a vida é apenas um acaso e sentimos nisso a necessidade de pormos pássaros em nossos céus, que adentram todas as nuvens e voltam para nós para contar tudo que viram num idioma que não conhecemos. E aí aprendemos a como olhar o céu e seus movimentos, suas nuvens e seus pássaros que cortam a imagem danificada pelo acaso. A fábula recheada de imaginação, de ritos, passagens e seres mais mitológicos que o pássaro em seus acasos. E depois de anos evitaremos o espelho porque o amanhã já não pertence mais a gente, mas aos outros que farão a mesma pergunta surrados pelo amor que silencia acasos, pássaros, nuvens ou qualquer outra coisa. Virá então a compreensão e se ela não aparecer você fingirá que entende do mesmo modo, porque palavras envelhecem, acasos também.

G.C.

Tempus Fugit

o adeus sem adeus
onde o mar fere os rochedos
sabe-se que a luta de um homem só
parece inútil
pois as leis com seus homens
e suas balanças determinam
o que pode ser poema ou
apenas uma insignificância
de seu verbo

as lágrimas chegam com seus decretos
com suas vinganças partidas e encerradas
dentro de nossas cabeças
com nosso juízo fundamentado
na incompreensão
na apreensão
nos poemas rabiscados na
parede
no muro
na pele
e que destroem coisas como
tempo
espaço
o relógio que sangra
nossas vidas
em pequenos rubis

destruindo as horas
os dias
os versos
os rochedos

nos cruzamentos das ruas
das pessoas em solidão
quando duas pessoas iguais se olham
ou dão um sinal
as leis deixam de ser inquisidoras
riscam o chão que pisamos com nossas
vaidades tão inúteis
com nossas canções já decoradas
cantadas em comunhão
em choro decorado
em silêncio
pensando que tudo é igual ao que
imaginamos

o mundo é cruel sim
Perséfone
extremamente cruel
quantas mãos que pedem nossos dedos
e que não fazem senão olhar os arquivos
do passado
de como eu mesmo me vejo fazendo isso
quando não respeito meus próprios pensamentos

os segredos do natural
os sonhos em fotografia
o desconhecido que atravessa a rua
e que faz a vida ter um sentido mesmo que breve
do mesmo que temos em nossos livros
do comparecimento ao nosso ponto particular
do espaço na hora exata
que a prosa pede
e que o verso exige

enquanto a eternidade for mortal
o amor estará cercado de números
de inconsistências e de amanhãs abortados
e quando tudo isso for apenas uma coisa
a se listar e calmamente ruir os mais
altos muros
então teremos nosso guarda-chuva
para jogarmos da ponte

G.C.