19.

“Fale comigo”. Era o que ela dizia ao rapaz que a deixou. Tremia igual a asa fria de qualquer pássaro. Chorava na sombra das grades e seu som adentrava a janela que eu habitava. Pensava nos momentos de silencio se estaria cego, pensava nas perguntas elementares do homem, das pessoas que choram pelos caminhos e que não sabiam para onde ir. Para onde ela irá? Para onde eu irei? Para onde o rapaz teria ido? Questionava e tinha a sensação de que algo nos empurrava, a todos nós. Às vezes ia até a janela e lá estava ela, solitária, com seu telefone à mão. Havia a tempestade azul. “Fale comigo”, dizia ela. E o som se repetia em meio aos outros sons. Tinha medo. Era apenas mais uma alma na rua atravessando o tempo e se perguntava na substância do choro o que seria dela naqueles dias que ainda viriam. Sim, fechados para nossos desertos porque no fim – pensei – terminamos sozinhos. Pensei em todas as pessoas em várias partes de todos os lugares passando pelo mesmo momento, de como eu já passei por aquele momento, quando larguei e quando fui largado. De como a cena é quase sempre a mesma, intransponível dentro do tempo. Para onde iremos? Olhava à minha volta e sentia e relembrava a dor, da finitude de um momento insuportável, difícil de tolerar. A memória volta, o que machuca volta, e cortamos o próximo com nossos horizontes, com nossos relâmpagos partidos ebulidos pelo tempo, por seus olhos que encaram aquele que a abandonou. O olho é crepúsculo, sim, definitivamente é. Lá fora o rapaz finalmente volta e eu, fechado em meus pensamentos, senti o mesmo medo de ontem, o mesmo pensamento. Tudo é tão frágil, tão frágil. Por vezes vazio. Quando voltei à janela já não estavam mais lá.

G.C.

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