15.

Depois daquelas horas juntos, pensava dias depois, caminhando sozinho pelas ruas. Pensei durante muito tempo que deveria ter dito alguma coisa que não disse. Ao escrever, agora, pensei na urgência disso, de chegar ao seu pé e dizer qualquer coisa. Dizer-lhe qualquer coisa como se fosse a última, numa redenção magnífica e primordial.

No caminho para o trabalho, durante muitas vezes, desliguei o ouvido de fora pra ouvir você todas as manhãs. Pensei naquela intimidade que o som nos traz do interior de nossas ruelas. Nessa intempestividade de haver a matéria que me faz, nessa vida que deu o dom (pelo menos alguma coisa!) da reflexão, estação após estação de metrô. Ao chegar, acabo dirigindo-me ao boteco vagabundo pra tomar um café. Percebo que tudo é radicalmente solitário. Tudo está caído sobre outro mundo que é impossível. Fecho a mão dentro dos bolsos num ritual patético e percebo como é belo este movimento que nos leva ao chão. Imagino que agora você esteja repousando num sono quase inconsciente, e aqui vou pela rua em direção ao trabalho. São nove horas e penso nos seus gestos absolutos. Sinto isso de uma forma quase desesperada, com a mão dentro dos bolsos, numa gritaria em silêncio.

G.C.

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