14.

Para meu amigo M.

Logo fará um mês que a barca afundou, Marcio. Sua barca em pedaços no fim de qualquer fim sem coisa, buscando a palavra correta para relatar o que se passava. A locução solitária e silenciosa do mundo, da vida carregando o olho de fotografias que a cada dia ficavam mais brancas. E a cada ano uma idade vigiada pelo interruptor apagado cada dia com mais tristeza. E agora tudo parou, talvez como você quisesse, porque pensando pra trás parecia sua vontade velada.

Penso nas memórias esquecidas, nas músicas perdidas em nossas conversas. Tudo pouco a pouco perdido na memória que me resta – e que você sabe – e que é fraca. Tudo não herdado. Esta noite antes de dormir pensei numa barca afundando com seu capitão, havia uma música. O movimento do vento terminaria de virá-la e conseguiria finalmente dormir. O vento é memória, meu amigo, é vento que corre, que apaga as velas que insistem na chama, igual palavras perdidas em meio ao solitário e silencioso modo de narrar o mundo.

Bater um vento, acender uma vela se fosse um rito da memória que sobrevive à própria memória que venta. A vaidade de acharmos que entendemos a morte quando somente pode ser compreendida na palavra, na música ou numa tela que ainda está molhada. Quando isso acontece é quando nos aproximamos de nós mesmos.

A barca afundou, mas a lembrança será vigiada enquanto eu estiver aqui, é uma promessa que faço enquanto esperamos o jubileu e seus restos que insistem na luz suspensa que a saudade descreve e impõe à palavra inexata, desértica e errante. Inevitavelmente sua.

G.C.

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