Poema sem nome [10]

certamente não lembrará pois foi há tanto tempo
e o que aconteceu pode
não ter significado nenhum
para você
mas para mim sim

aquele garoto triste
eu não sei mais quem era
se era eu
ou se era outro eu temporário
mas lembro dele com um
amor infindável
do mesmo amor de um pai
ao embalar seu filho noite
adentro
no nascimento
na morte
porque fui esse garoto antes
de nascer
de viver
e de tudo que se seguiu
dentre tantos anos

você partiu
eu fiquei
e isso foi um sinal
pra mim
das coisas que
aconteceriam
dali por diante

o destino que nunca
acreditei
me pregou essa peça
porque os tristes de coração
padecem disso

vislumbrei nosso instante
que para mim significou
uma vida por muito tempo
a porta semiaberta para
que eu entrasse
já não sabia
[naquele momento]
a busca impossível
dos pormenores
da vida que tive
completamente
fodida ao te ver

ao piano
tocando aquela
música que
não me atrevo
a dizer o nome
da melodia devastada
de solidão
da leitura concentrada
do seguimento matemático
das notas
era além disso
era música na ponta
dos dedos
do sentimento de covardia
de abrir o coração
de reconhecer-me
naquela melodia
todo um quebra cabeça
de amor
de complexidades
sem nexo algum

lembro da exposição que
aquele momento me causou
toda minha fragilidade
minhas fraquezas

tristezas
defeitos
a sensibilidade brutal
que essa urgência
me causou
[e que ainda causa]
de tudo que me fazia
criar até a dor física
surgir galopante
da sedução que tentei
repetir sozinho
músicas
cartas
projetos de poemas
pinturas
qualquer coisa

apareceste devagar
em minha vida
e foi assim que tudo
fez sentido naquele momento
de quando minha solidão
foi emparedada e de
quando a música de certa
forma me salvou
à minha maneira

meu boicote pronto
florido
verdadeiramente
verdadeiro

e lembrei por anos dessa
cena incrível
da mulher ao piano
que me pediu para
não continuar
que ninguém jamais
havia feito tal melodia
nem aqueles que amam
loucamente
desesperadamente
como se isso fosse realmente
amor
mas sim desconforto da alma
falta de coragem de viver
algo saudável em nossos redores
nossas peles
e sofri com nossa ausência
e me puni severamente
ao longo dos anos por isso

e tu jamais soube da significância

que para mim teve aquele momento
do amor que me dedicou naquela
transbordada melodia
do desparamento
da vida
da distância infinita
do toque entre peles

certamente não lembrará
mas eu sim

a vida passou tão depressa
tudo foi há tanto tempo
numa velocidade tão
incrível
contornos de memórias
fustigadas
desbotadas
que teimam em lembrar
mesmo no apagamento
e nos levam para todos
os lados
como troncos podres
na corredeira débil
a viagem certeira
para a queda

para o aprisionamento
do que resta dos dias

não dormi por muitas
noites
ao longo dos anos
porque o peito doía
era sempre o peito
essa ilusão fodida
mágica e
tenebrosa

era raro uma noite em que
dormisse antes das onze
porque o quarto
[suas paredes]
falavam comigo
as coisas dentro dele
os desenhos que o destino
impôs à parede num rito
futurístico que para mim
faria sentido naquele momento

e não
não era eu a fazer o sentido das coisas
era a vida

com seus muros esperando
sua mensagem esperando
algo para poder crer
para poder crer novamente em
deus
em qualquer coisa
para poder ver cor
nas ruas novamente
vida em preto e branco

[só queria me sentir protegido]

queria uma mensagem sua
queria poder abrir minha porta
pra você também e que a adentrasse
afundada em meus transbordamentos
e que arrancasse de vez minha tristeza
para nunca mais precisar escrever

por que lembrei de ti?
por que lembrei daquele instante?
por que faz sentido pra mim e não
para você?
por quê?

tu me ensinou a verdadeiramente
criar naquela tarde
e tu veio até mim para isso
e eu quis mais
de meus dramas burlescos
de nosso fim arrancado
por deus
do ordenamento de ter
que criar para espantar
meu desespero

ordem de partida
para a guerra de
nós mesmos

você esteve viva em mim
por anos
corri para sua trincheira
em tentativas falhas
sempre morria
todos os dias
numa razão devastadora
de lutar contra o óbvio
mas orgulho-me de
dizer que você foi meu
farol

mas que agora renuncio
para poder continuar
vivo

da cena de dar alguns passos
de tirar os sapatos para não
fazer barulho enquanto tocavas
de me afogar em sua imagem
ao teu lado
absurdamente ali
da última vez que te vi

e te dizer o quanto era
importante e do quanto
precisaria de momentos assim
[só que não disse nada]

[aprendi algo contigo que jamais
esquecerei]

levarei esse episódio
[e só esse]
comigo para sempre
teu bem querer
quem sabe seu amor
mais importante pra mim

do que foi para você
de como compartilhamos
nossa incapacidade de jamais
dizer um
eu te amo
de como lamentei isso
porque você foi uma parte
de mim
que queima
que dilacera durante as madrugadas
e choro desesperadamente
porque queima
porque dói
porque fode com tudo
guerra perdida
guerra que agora abro mão
e acho que fui até longe demais
muitos teriam desistido antes

toda noite há um redemoinho no teto
são nossas imagens rodando no gesso
de como foi bom o pouco que tive

lembra daquela tarde?
[obrigado por ter cuidado de mim]

G.C.

2 comentários em “Poema sem nome [10]

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