10.

O papel é a verdadeira parede, a parede é o verdadeiro papel. Escrever nos dois com seus cacos que arranham sua pele, sua temível lentidão que os dias chuvosos tratam de emancipar. O som que guardo dentro de mim, a música que é apenas o acaso de um caos que se for desvendado se tornará mais uma ordem cartografada futuramente por alguém. E o que isso importaria para mim? O que importaria para a pele que arranho firme, fiel e verdadeiramente?

Na casa de minha mãe tem um relógio que rasga essas paredes e todos os papéis e todas as músicas. O relógio que demarca o tempo, a hora de nascimento e de morte igual aquilo que escrevemos. Tudo dependurado por uma energia consumida na fricção do ato. A lentidão que esquece a termodinâmica dos horizontes.

Tantas paredes, tantos papéis, tantas chuvas (mas que caem de infinitos modos ainda não cartografados), tantos relógios, tantas músicas, para que no fim nos tornemos calabouços de nossa própria desobediência. E escrevo na parede, no papel, não importa o lugar, acabamos absorvendo sua morte para fazer um fagulho de vida que durará segundos, agulhas finas riscando a cartografia de todas essas coisas porque a morte nunca é suficiente para quem é invisível, para quem se fecha em pesadelos e transforma isso em algo belo para poder dar aos seus observantes as suas quinas fechadas, desgastadas e silenciosas do grito. A sua e a minha mudez.

G.C.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s