5.

CAFÉ DO M.

Onde eu estaria se não estivesse aqui no Café? Difícil  pensar nisso. Ficaria triste se não  pensasse nisso como alguém que bate as portas com força para gerar corrente de ar. Onde eu estaria? Discutiria isso com alguém se pudesse e não chegaria a lugar nenhum. Levaria meu corpo pelas ruas até o hospital em frente com meu atestado de loucura.

Engraçado como não gosto de hospitais – pensei – de nenhuma espécie. Vi uma recepcionista com maquiagem barata pedindo um café igual ao meu. As recepcionistas estarão perdidas no mesmo universo que me encontro? Talvez essa corrupção de sentimentos no fundo do copo seja minha real ignorância. Vejo a falta de virtude que me cerca, minha provável herança e condição ao fracasso. Poderia ser diferente?

Não me sinto tão culpado agora. Se todos são cegos, por que eu deveria ter coerência? Mesmo os homens mais cegos tentam informar, sem errar, os caminhos aos que ainda estão entrando na estrada, no Café. Não importa. Sou arrogante? Escrever não tem me servido mais, pois a minha entrega tem se tornado desprezo com os outros. Sinto inveja de quem se tornou algo que não pude ser. Sinto-me um boneco carregado com desleixo por qualquer criança. Poderia escrever mais sobre o aperto que sinto no peito, poderia advertir sobre qualquer tipo de amor, mas do que adiantaria? Poderia divagar sobre os infelizes chistes de alegria ao derramar o açúcar no café. Poderia fazer isso, mas seria para destruí-lo, como sempre fiz.

G.C.

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