Poema sem nome [9]

I

precisarás do tempo necessário
mesmo que para ti ele seja
infinito e atemporal
o tempo
sim
o tempo com aquelas roldanas
gastas
com nacos arrancados conduzidos
em seu giro eterno
por arame farpado
fazendo nascer a luz dos postes
em que choraremos
e mijaremos a obstinação
pueril e consequente de nossas
quedas

II

tu te curvarás ao espelho procurando
a fenda no rosto
e isso será com urgência
com desespero porque a roldana girou
muito mais do que havia previsto
seu curvar será a subjugação à vida
e nela estará costurada a cicatriz
uma escolha sem poder escolher
como um quadro de Pollock

III

pararás para ler um livro
e dirá que aquilo é literatura
que aquilo é um poema
e o ar será aspirado com mais força
e infinitos estilhaços desses escritos
atravessarão seu coração
e faremos de tudo pra não morrer
nessas palavras

IV

teremos nosso consolo
em qualquer fuga dentro da cidade
o álcool
o fumo
as drogas
os livros
a areia do gato que precisa
ser trocada
mas no fim nos restará alguma coisa
restará uma coisa entre tuas mãos
feridas que ainda correm
que ainda não viraram cinza

V

a voz do outro lado
da aba de trabalho
dirá coisas apenas
que enervarão a polaina
e tu quererás que gire mais rápido
que gire violentamente
até que tudo seja um eco
de uma resposta sem sentido

VI

o recado que chega pelo celular
a mensagem que mudará tudo
ou que será apenas alarme falso
ouvir tua voz do outro lado
dispersando a chuva
dispersando a mensagem derradeira
de despedida definitiva
minha
sua
nossa elegia de metal
e plástico

VII

tudo será uma lembrança que em
alguma ocasião será retirada do
arquivo-morto de tuas próprias
memórias
das memórias que fazem sol
das orações pretensiosas
que virão com sons na noite
com formas que não sabemos
que partem o coração

VIII

relembraremos nossas conversas
e verei seu rosto novamente
mexendo os lábios
arqueando as sobrancelhas
com a certeza de sua palavra
o peso que ela fez em nós
e que se espalham na recordação
marcada na pele
nossa única certeza de sua
evocação
quase o toque real que haverá
sempre de ser quase

IX

teremos aquela música para
estragar quando tudo se for
nossa impressão de que o tempo
parou ali naquela melodia
ali a roldana não gira
quanta ironia

X

girem
girem
pequenas roldanas encrespadas
pois sempre haverá literatura
pra ser arrancada de sua barbaridade
a inútil promessa de que
chegaremos a algum lugar dentro
da gente
o fim de todas as cidades que
moram dentro de nós

G.C.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s