Poema sem nome [4]

somos a traição de nós mesmos
somos descalços para o falso
das ideias despedaçadas de uma moral
duvidosa e cruel
das hordas alheias que maltratam
o pensamento

dos anos que urgem e se proclamam
sempre melhores
porque o homem suporta o peso
do existir e se adapta a isso
porque sempre é possível um
pouco mais
sempre é possível arrancar ou forçar
um pouco mais

sempre um pouco mais
das possibilidades impossíveis
da chuva que cai pra cima
das coronhadas de amor dos pesadelos
da hipocrisia que escandaliza com o amor
e suas pernas quebradas
da paz alçada com sangue
do amor sincronizado com a televisão
e que dá ao amor outra sublimação de amor
e que vira contramão da contramão de amar
e que todos choram e aplaudem como verdadeiro
igual num final de filme em que os dois
ficam juntos

tornamo-nos mártires dessas situações
que viram alento
que viram conforto para mais um dia
com nossas orações aos seres de plástico
de gesso
de elegia floreada num mundo
tonto
vazio
e chinfrim

nossos deuses que dizem o que os
deuses dizem
das mensagens falsificadas
no telefone sem fio
sem origem
sem destino
que panfletam as virtudes
que devemos comprar no celular
com seus ditos e ritos patéticos
de passar o número do cartão
e ter nossas borboletas que amanhã
estarão mortas
e diremos isso para todos
para que consigamos alcançar aquilo
que jamais teremos

sua vida
isso mesmo
sua vida
porque sua vida não é sua
não nesse mundo
porque somos atirados
na nebulosa
que vira misticismo
– destino? –
da enganação de que
vivemos na lama
obra homônima
da tristeza
que é a constatação pura
e simples de que não vivemos

[somos passagens traiçoeiras
que não suportam a ausência]

G.C.

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