14.

Para meu amigo M.

Logo fará um mês que a barca afundou, Marcio. Sua barca em pedaços no fim de qualquer fim sem coisa, buscando a palavra correta para relatar o que se passava. A locução solitária e silenciosa do mundo, da vida carregando o olho de fotografias que a cada dia ficavam mais brancas. E a cada ano uma idade vigiada pelo interruptor apagado cada dia com mais tristeza. E agora tudo parou, talvez como você quisesse, porque pensando pra trás parecia sua vontade velada.

Penso nas memórias esquecidas, nas músicas perdidas em nossas conversas. Tudo pouco a pouco perdido na memória que me resta – e que você sabe – e que é fraca. Tudo não herdado. Esta noite antes de dormir pensei numa barca afundando com seu capitão, havia uma música. O movimento do vento terminaria de virá-la e conseguiria finalmente dormir. O vento é memória, meu amigo, é vento que corre, que apaga as velas que insistem na chama, igual palavras perdidas em meio ao solitário e silencioso modo de narrar o mundo.

Bater um vento, acender uma vela se fosse um rito da memória que sobrevive à própria memória que venta. A vaidade de acharmos que entendemos a morte quando somente pode ser compreendida na palavra, na música ou numa tela que ainda está molhada. Quando isso acontece é quando nos aproximamos de nós mesmos.

A barca afundou, mas a lembrança será vigiada enquanto eu estiver aqui, é uma promessa que faço enquanto esperamos o jubileu e seus restos que insistem na luz suspensa que a saudade descreve e impõe à palavra inexata, desértica e errante. Inevitavelmente sua.

G.C.

Poema sem nome [10]

certamente não lembrará pois foi há tanto tempo
e o que aconteceu pode
não ter significado nenhum
para você
mas para mim sim

aquele garoto triste
eu não sei mais quem era
se era eu
ou se era outro eu temporário
mas lembro dele com um
amor infindável
do mesmo amor de um pai
ao embalar seu filho noite
adentro
no nascimento
na morte
porque fui esse garoto antes
de nascer
de viver
e de tudo que se seguiu
dentre tantos anos

você partiu
eu fiquei
e isso foi um sinal
pra mim
das coisas que
aconteceriam
dali por diante

o destino que nunca
acreditei
me pregou essa peça
porque os tristes de coração
padecem disso

vislumbrei nosso instante
que para mim significou
uma vida por muito tempo
a porta semiaberta para
que eu entrasse
já não sabia
[naquele momento]
a busca impossível
dos pormenores
da vida que tive
completamente
fodida ao te ver

ao piano
tocando aquela
música que
não me atrevo
a dizer o nome
da melodia devastada
de solidão
da leitura concentrada
do seguimento matemático
das notas
era além disso
era música na ponta
dos dedos
do sentimento de covardia
de abrir o coração
de reconhecer-me
naquela melodia
todo um quebra cabeça
de amor
de complexidades
sem nexo algum

lembro da exposição que
aquele momento me causou
toda minha fragilidade
minhas fraquezas

tristezas
defeitos
a sensibilidade brutal
que essa urgência
me causou
[e que ainda causa]
de tudo que me fazia
criar até a dor física
surgir galopante
da sedução que tentei
repetir sozinho
músicas
cartas
projetos de poemas
pinturas
qualquer coisa

apareceste devagar
em minha vida
e foi assim que tudo
fez sentido naquele momento
de quando minha solidão
foi emparedada e de
quando a música de certa
forma me salvou
à minha maneira

meu boicote pronto
florido
verdadeiramente
verdadeiro

e lembrei por anos dessa
cena incrível
da mulher ao piano
que me pediu para
não continuar
que ninguém jamais
havia feito tal melodia
nem aqueles que amam
loucamente
desesperadamente
como se isso fosse realmente
amor
mas sim desconforto da alma
falta de coragem de viver
algo saudável em nossos redores
nossas peles
e sofri com nossa ausência
e me puni severamente
ao longo dos anos por isso

e tu jamais soube da significância

que para mim teve aquele momento
do amor que me dedicou naquela
transbordada melodia
do desparamento
da vida
da distância infinita
do toque entre peles

certamente não lembrará
mas eu sim

a vida passou tão depressa
tudo foi há tanto tempo
numa velocidade tão
incrível
contornos de memórias
fustigadas
desbotadas
que teimam em lembrar
mesmo no apagamento
e nos levam para todos
os lados
como troncos podres
na corredeira débil
a viagem certeira
para a queda

para o aprisionamento
do que resta dos dias

não dormi por muitas
noites
ao longo dos anos
porque o peito doía
era sempre o peito
essa ilusão fodida
mágica e
tenebrosa

era raro uma noite em que
dormisse antes das onze
porque o quarto
[suas paredes]
falavam comigo
as coisas dentro dele
os desenhos que o destino
impôs à parede num rito
futurístico que para mim
faria sentido naquele momento

e não
não era eu a fazer o sentido das coisas
era a vida

com seus muros esperando
sua mensagem esperando
algo para poder crer
para poder crer novamente em
deus
em qualquer coisa
para poder ver cor
nas ruas novamente
vida em preto e branco

[só queria me sentir protegido]

queria uma mensagem sua
queria poder abrir minha porta
pra você também e que a adentrasse
afundada em meus transbordamentos
e que arrancasse de vez minha tristeza
para nunca mais precisar escrever

por que lembrei de ti?
por que lembrei daquele instante?
por que faz sentido pra mim e não
para você?
por quê?

tu me ensinou a verdadeiramente
criar naquela tarde
e tu veio até mim para isso
e eu quis mais
de meus dramas burlescos
de nosso fim arrancado
por deus
do ordenamento de ter
que criar para espantar
meu desespero

ordem de partida
para a guerra de
nós mesmos

você esteve viva em mim
por anos
corri para sua trincheira
em tentativas falhas
sempre morria
todos os dias
numa razão devastadora
de lutar contra o óbvio
mas orgulho-me de
dizer que você foi meu
farol

mas que agora renuncio
para poder continuar
vivo

da cena de dar alguns passos
de tirar os sapatos para não
fazer barulho enquanto tocavas
de me afogar em sua imagem
ao teu lado
absurdamente ali
da última vez que te vi

e te dizer o quanto era
importante e do quanto
precisaria de momentos assim
[só que não disse nada]

[aprendi algo contigo que jamais
esquecerei]

levarei esse episódio
[e só esse]
comigo para sempre
teu bem querer
quem sabe seu amor
mais importante pra mim

do que foi para você
de como compartilhamos
nossa incapacidade de jamais
dizer um
eu te amo
de como lamentei isso
porque você foi uma parte
de mim
que queima
que dilacera durante as madrugadas
e choro desesperadamente
porque queima
porque dói
porque fode com tudo
guerra perdida
guerra que agora abro mão
e acho que fui até longe demais
muitos teriam desistido antes

toda noite há um redemoinho no teto
são nossas imagens rodando no gesso
de como foi bom o pouco que tive

lembra daquela tarde?
[obrigado por ter cuidado de mim]

G.C.

13.

Depois de tantos anos acabamos aprendendo alguma coisa com a ausência. Aprendi a escrever menos, aprendi a prestar mais atenção na cartografia dos olhos. Os sinais que deixamos – com o tempo – pra lá e não sabemos mais como interpretar. Tudo é, depois de anos, um catálogo, uma mancha nessa cartografia. E caímos para cima, do teto que encaramos antes do sono, nas linhas que machucam a parede e sopram seus tempos para uma fuga. O sonho que durou dez anos em alguns minutos, da última tragada denunciada na aquarela que paira no ar. Sim, a ausência pode ser traduzida em bilhões de esferas e idiomas e ainda assim quando bate aos olhos, consciente, guarda uma beleza que só pode ser extraída da própria vida que queima.

G.C.

12.

Pouco tempo atrás fui a um velório de um desconhecido. Vi as pessoas chorando, clamando por deus, rezando e implorando uma passagem tranquila ao rapaz. Morreu jovem. No meio daquela gente eu fiquei pensando no que se tornou a minha vida, no tempo em que passei em estado de sonho, no tempo que passou vivido em ilusão, numa mentira tosca e cruenta de mim mesmo. Vivi um futuro imaginado e ao ver o rapaz morto senti finalmente a falta da razão das pessoas, a minha própria falta de razão ao viver do passado e eles de deus. Um rio que corre solitário em meio ao que os mortais jamais saberão, jamais.

Senti naquele momento a vida passada em vão, um rio que corre mais rápido que eu, mais depressa que meu desejo de finalmente não questionar mais nada. O deus de vocês põe e tira sem uma explicação lógica, o que resta é rezar à sua vontade, não ao passado corrido em futuro presente, não ao fato da dúvida, pois a dúvida nunca foi confortável, nem para mim. Enfim, fui tudo aquilo que não pude ser e senti isso ao olhar a sala ao lado, com outro velório, só que vazio, sem uma alma para lhe dar as placas, setas, a prece, a música ou a ilusão. O palco de deus é onde corro nu, numa ilusão que penso ser real para um reino onde as coisas não são tão justas como manda qualquer passagem. Nossa hora é amanhã.

G.C.

11.

O GLORIOSO ESPETÁCULO DO ABSURDO

Calamos diante o absurdo. Sim, nos calamos. E nos tornamos apenas um corpo biológico, uma ampulheta irregular que é incapaz de datar aquilo que para nós – na fuga – é incompreensível. Viramos uma ruína musicada nas canções, somos escaneados pelos poucos fragmentos que passam por nosso filtro, o olho, a pele, o ponto cardinal que tangencia a recusa do absurdo. Sim, nos calamos. E o que mais tangível foi não passou de tão somente aquele nosso vazio que tentamos explicar escrevendo outros absurdos que poucos entenderão.

E o peso permanece, mas a gente se acostuma igual nos acostumamos com tantas coisas. Ah, vai doendo aos poucos, mas a gente aguenta, e caem e não se consomem, não viram outra coisa, o peso permanece igual o plástico que demora mil anos para se decompor. A morte em vida vira mais a uma coisa a se calar, a cegueira vira mais uma coisa a se calar, o fato de se adoecer numa sociedade doente, num sistema doente e mesmo assim você defender os dois dentro de um individualismo que é calado. Aliás, estuchado pelo próprio sistema.

O resultado é vestir a máscara e dizer “sim, está tudo bem” quando não está. E testaremos os meridianos com nossas fugas para que possamos aguentar mais um dia, e essas duas pessoas que vestem essas duas máscaras não se tocam, jamais se tocarão, pois quando isso acontece a loucura chegará com suas razões inexplicáveis, calando mais inquietudes e berrando para todos as verdades que calaremos diante o absurdo.

E surgirá a história renegada, os poucos que mostrarão algo novo e serão alcunhados de doentes dentro de encruzilhadas fedendo a senilidade do claustro cardíaco que é calar, mas calar por um modo de sobrevivência. E no meio de tudo teremos nossas máculas para lamber quando for necessário, esse salseiro de tantas ausências, de máscaras que tornam as ruas vazias, que tornam as vidas e os dias vazios.

A muitos resta o silêncio, é compreensível. Aqui poderia ser um ponto de fuga pra eles igual é pra mim. Um entardecer sem sol, um poente sem nuvens, onde é impossível esconder ou calar os nossos mais tenebrosos fantasmas.

Absurdo-me.

G.C.

10.

O papel é a verdadeira parede, a parede é o verdadeiro papel. Escrever nos dois com seus cacos que arranham sua pele, sua temível lentidão que os dias chuvosos tratam de emancipar. O som que guardo dentro de mim, a música que é apenas o acaso de um caos que se for desvendado se tornará mais uma ordem cartografada futuramente por alguém. E o que isso importaria para mim? O que importaria para a pele que arranho firme, fiel e verdadeiramente?

Na casa de minha mãe tem um relógio que rasga essas paredes e todos os papéis e todas as músicas. O relógio que demarca o tempo, a hora de nascimento e de morte igual aquilo que escrevemos. Tudo dependurado por uma energia consumida na fricção do ato. A lentidão que esquece a termodinâmica dos horizontes.

Tantas paredes, tantos papéis, tantas chuvas (mas que caem de infinitos modos ainda não cartografados), tantos relógios, tantas músicas, para que no fim nos tornemos calabouços de nossa própria desobediência. E escrevo na parede, no papel, não importa o lugar, acabamos absorvendo sua morte para fazer um fagulho de vida que durará segundos, agulhas finas riscando a cartografia de todas essas coisas porque a morte nunca é suficiente para quem é invisível, para quem se fecha em pesadelos e transforma isso em algo belo para poder dar aos seus observantes as suas quinas fechadas, desgastadas e silenciosas do grito. A sua e a minha mudez.

G.C.

9.

As máscaras daqueles que fingem não sentirem. A abdicação forçada daquilo que para as pessoas é essencial. A sensibilidade notada não pela ausência, mas pelo fingimento de não a ter. Sensibilidade e razão? E por que esmagamos as pessoas e nossos filhos ensinando-os a virarem cavalos em busca do primeiro lugar? Desumanizar para conquistar. Humanizar e perder em seguida. Atravessar o caminho alheio e não sentir nada com isso. O modo de agir está nos manuais e agir seguindo sua didática é um retorno à dor, mas somente a sua dor. Porque quem vê para, quem ouve corre e quem sente considera o mundo de fora muito mais que uma matéria para se fazer resistir. A máscara que pesa e nos curva com o tempo, vira nosso escudo para a síntese da vida. Afinal, o que seriam das pessoas se fôssemos apenas humanos?

G.C.

8.

A opinião não era unanime. Alguns achavam que deus escrevia errado de propósito, outros disseram que ele não sabia escrever e que entortava as linhas por pura imprudência. Afinal, o que importaria, já que deus avançou o sinal vermelho? Não caberia a nós, meros mortais, dar-lhe um caderno para aprender a escrever e também em manter a linha reta. O suicídio é uma vitória de quem? Também discutíramos horas, alguns achavam que a vitória era de deus, supondo ele ser sádico. Outros creditavam a vitória ao que se mata, uma minoria não creditara a vitória a ninguém. A imprudência de ambos – deus e dos homens – é que torna a vida temerária, cada dia mais cara e excessiva. Seus caminhos, suas palavras tortas e incompreensíveis que fodem com a emoção. Não sabemos ler ou ele não sabe escrever? Os homens sobrevivem, saem feridos e os que ficaram que de alguma forma ainda sorriem, todos contam seus causos como se fossem milagres – e talvez até sejam – e a religião trata de transformar isso em sua própria emanação. O ódio, o riso, o amor, a alegria, seus caminhos também tortos. Tudo virou uma opinião tão torta quanto as linhas de deus. A opinião não era unanime, nunca foi. Alguns acham que deus estava brincando, outros que ele pisou num monte de merda e escorregou e bateu de cabeça. Alguns mais sábios diziam que depende do ponto de vista. De fato, dependeria do ponto de vista, dos olhos entortados ao qual fomos fielmente forjados. Por quem? Não importa. Um dia eu falei com deus, mas ele não respondeu, talvez seja surdo, mas essa é outra hipótese ainda não discutida. Nesse dia eu estava numa igreja, aliás, o último dia que entrei numa igreja. E já que existem tantas igrejas no mundo eu presumi que ele estivesse muito ocupado – salvo a hipótese da surdez, claro! – porque afinal, até nós humanos nos distraímos ou nos perdemos quando muitos nos chamam ao mesmo tempo. No lugar de deus talvez fizesse a mesma coisa e não responderia ninguém, sairia porta afora caminhando sem rumo, perplexo, tentando entender a incompreensão daqueles que não acreditam em mim. Tentar entender de alguma maneira a falta de comunicação que eu tenho com os outros, nessa espécie de autismo sabido e sem solução. Deus está sozinho? Também seria uma discussão. Se eu estou, por que ele também não poderia? Porque estar só num mundo habitado por tantos outros, com nossas solidões que se comunicam em diversos níveis, sim, isso seria uma declaração de existência, sua declaração do brutal, da eminência de que a opinião nunca é unanime, de como assistimos as mixórdias de deus ou de como ele assiste as nossas. De ver Whitman metido num manicômio, ou qualquer outro Twain na sarjeta ou algum Bukowski metido num puteiro. Tudo seria um ponto de vista que não se converteria num silêncio guardado com paz, com seu triunfo cego e imediato de pensar ser algo, de fazer parte de algo, dessa fodida e talvez até deliciosa falta de importância coletiva. Se pessoas assim podem guardar tantos pensamentos, heresias e sentimentos, podemos supor que todos estão inacreditavelmente sós, rodeados por questionadores e deuses e vidros sujos procurando algo, alguma coisa. A opinião não era unanime. Alguns achavam que os homens eram animais dramáticos capazes de internalizar o que os outros bichos manifestam em outros tipos de linhas, mais retas, disseram alguns, outras mais tortas que as de deus, mas visíveis. A objetividade já não era mais um cerne a ser discutido, já que a poesia e filosofia tomaram conta da preciosa comédia que é a solidão, com seus abraços falsos, seus cumprimentos tão diplomáticos quanto um adido suíço. Tudo era tão barato quanto qualquer pensamento. Somente esse otimismo que tiramos do cu poderia ser algo para dissimular a vida e até mesmo deus, os contatos com o desconhecido como as folhas que se batem no ar antes de chegarem ao chão. Tudo isso poderia ser o quê? Céu ou chão? Homem e sua visão limitada ou deus? E absurdamos a vida assim, transformando o que apenas deveria ser dentro do ser em algo violento que saltam aos olhos do próximo que pisam errado na borda, que esticam a linha daqueles que não sabem escrever. O amor, uma elegia que tão logo verdade, deixa de ser verdade. E o que é verdade? A opinião não era unanime. E a consciência de ser supor algo já estava tão longe e tão perto como qualquer solidão, no cinema, na biblioteca, no bar ou no puteiro. Tudo era paradoxalmente o cúmulo das solidões acompanhadas de outras pessoas também solitárias, todos alheios a todos. A opinião não era unanime sobre deus, ainda. Ainda não se chegaria a um consenso sobre isso, porque se conhecendo a outra parte, da qual nos aproximamos ou repelimos com nojo, a verdade jamais poderá ser alcançada, porque não cabe a nós o julgamento do que pode ser ou do que não pode ser. É o reconhecimento – sem ter o reconhecimento – de nosso erro. Sua lembrança, sua redação em linhas tortas que ameaçam e fodem a memória.

G.C.

7.

CANÇÃO ELEGÍACA

Nunca tive notícias do que senti, jamais ouviram meu nome. Estive aqui o tempo inteiro, implorando por lucidez, rastejando uma palavra, falando mal das horas em que a esperança pesava em meu pescoço, como se fosse me enforcar. Tenho apenas uma lembrança do homem que fui, uma lembrança desdita num murmúrio em que prendo a respiração. Pausadamente observo o tempo e procuro a resposta de minhas preces do passado, mas eu não sou mais eu, sou a distância que existe entre melancolia e uma manhã de céu azul acinzentado. Durante muito tempo achei que teria que dizer alguma coisa. Hoje não sinto mais isso, perdi até a vontade de escrever, a vontade de compor. Quero guardar tudo pra mim. Pensei na urgência de ter que expor os sentimentos, na redenção que isso me causaria. Queria chegar aos pés de deus e dizer qualquer coisa, qualquer coisa que fosse última e única.

Durante muito tempo, no metrô, quando o trem saía para a superfície, desligava a música dos ouvidos para ouvir o amanhecer. Pensei na intimidade dos sons para comigo, em como uma imagem mesmo que fodida ou acidentada poderia me levar às lágrimas ou a um suspiro de entendimento com tudo. Por que sou capaz de tantas reflexões sem importância? Por que isso me machuca tanto? Por que sou capaz de debruçar em mim mesmo através dos tempos? Sinto-me jogado pelas ruas, sem nunca ter tido um pai para dar uma palavra de apoio sem que fosse fingido, a tomar o café vagabundo pelas manhãs. Tudo é tão radical, mãe, é tudo tão só que chega a doer. Sinto-me deitado sobre um mundo que não existe e que me surra para a ilusão, que destrinça de um nada atrelado ao nada. A solidão de um texto faz chorar, cada objeto que se contrapõe é um prelúdio para a solidão, para a guerra de mãos dentro do bolso ou das mãos deitadas na mesa de um café barato. É belo, é tão belo ser marginal para imaginar a disponibilidade das pessoas através de tantas impossibilidades, sentir com os dedos a dor escondida de outras pessoas, destas mesmas que são incapazes de relatar a tristeza que sinto. Penso que elas sentem tudo isso e as ignoram com coisas ou atos que para mim não passam de um sono inconsciente. Jamais ouviram meu nome porque sou irredutível e baixo o choro engolido até o chão, porque não posso mostrar aos outros a minha desordem fabulosa, minha histeria que procuro manter silenciosa ou a ternura quase infinita que se lava aos prantos. Sinto por tudo isso, sinto pelo remedo que sou, sinto pelos rostos cortados que me atravessaram.

G.C.

6.

Até um tempo atrás pensei que poderia mudar o mundo com a arte. Busquei fazer a música ideal para buscar no coração das pessoas essa mudança. Queria poder mostrar uma nova forma de vida, de sentimento, sem a obrigação da moral, do dinheiro ou qualquer coisa mundana. Queria apenas mostrar a maneira com a qual eu vejo o mundo. Agora compadeço: fiz tudo inutilmente. Não apenas não consegui, mas percebi como as pessoas se tornaram mais materialistas, idiotas e insensíveis. Vivi tantos fracassos que meu esforço era pra não morrer pelos socos que a vida me deu e ainda dá diariamente. Agora sei que não posso mudar as pessoas, a única pessoa que posso mudar sou eu mesmo, encontrar algo em mim, algum desejo, alguma necessidade que me faça sonhar em algo realmente belo. Queria poder não olhar pra trás e constatar isso. Então, na música que fiz e que faço, encontrei o que realmente preciso pra mim. Sei agora que músicos não mudam o mundo, mas alguns passam a vida tentando sem conseguir. Bravos! É um fracasso que realmente admiro. Sou um perdedor igual a vocês que tentaram, que nunca se cansam de perder. Desfruto em cada música, sejam minhas ou suas, o meu rotundo fracasso, esquecendo assim as certezas das pessoas mecanizadas que nunca sequer sentiram alguma coisa realmente. A música que corre em mim, esta música que corre em meu coração, esta música que está em mim da cabeça aos pés e me faz dançar sem me mover. Este símbolo patético e inútil que é uma causa heroica, verdadeira e muito importante aos que veem.

G.C.

5.

CAFÉ DO M.

Onde eu estaria se não estivesse aqui no Café? Difícil  pensar nisso. Ficaria triste se não  pensasse nisso como alguém que bate as portas com força para gerar corrente de ar. Onde eu estaria? Discutiria isso com alguém se pudesse e não chegaria a lugar nenhum. Levaria meu corpo pelas ruas até o hospital em frente com meu atestado de loucura.

Engraçado como não gosto de hospitais – pensei – de nenhuma espécie. Vi uma recepcionista com maquiagem barata pedindo um café igual ao meu. As recepcionistas estarão perdidas no mesmo universo que me encontro? Talvez essa corrupção de sentimentos no fundo do copo seja minha real ignorância. Vejo a falta de virtude que me cerca, minha provável herança e condição ao fracasso. Poderia ser diferente?

Não me sinto tão culpado agora. Se todos são cegos, por que eu deveria ter coerência? Mesmo os homens mais cegos tentam informar, sem errar, os caminhos aos que ainda estão entrando na estrada, no Café. Não importa. Sou arrogante? Escrever não tem me servido mais, pois a minha entrega tem se tornado desprezo com os outros. Sinto inveja de quem se tornou algo que não pude ser. Sinto-me um boneco carregado com desleixo por qualquer criança. Poderia escrever mais sobre o aperto que sinto no peito, poderia advertir sobre qualquer tipo de amor, mas do que adiantaria? Poderia divagar sobre os infelizes chistes de alegria ao derramar o açúcar no café. Poderia fazer isso, mas seria para destruí-lo, como sempre fiz.

G.C.

Poema sem nome [9]

I

precisarás do tempo necessário
mesmo que para ti ele seja
infinito e atemporal
o tempo
sim
o tempo com aquelas roldanas
gastas
com nacos arrancados conduzidos
em seu giro eterno
por arame farpado
fazendo nascer a luz dos postes
em que choraremos
e mijaremos a obstinação
pueril e consequente de nossas
quedas

II

tu te curvarás ao espelho procurando
a fenda no rosto
e isso será com urgência
com desespero porque a roldana girou
muito mais do que havia previsto
seu curvar será a subjugação à vida
e nela estará costurada a cicatriz
uma escolha sem poder escolher
como um quadro de Pollock

III

pararás para ler um livro
e dirá que aquilo é literatura
que aquilo é um poema
e o ar será aspirado com mais força
e infinitos estilhaços desses escritos
atravessarão seu coração
e faremos de tudo pra não morrer
nessas palavras

IV

teremos nosso consolo
em qualquer fuga dentro da cidade
o álcool
o fumo
as drogas
os livros
a areia do gato que precisa
ser trocada
mas no fim nos restará alguma coisa
restará uma coisa entre tuas mãos
feridas que ainda correm
que ainda não viraram cinza

V

a voz do outro lado
da aba de trabalho
dirá coisas apenas
que enervarão a polaina
e tu quererás que gire mais rápido
que gire violentamente
até que tudo seja um eco
de uma resposta sem sentido

VI

o recado que chega pelo celular
a mensagem que mudará tudo
ou que será apenas alarme falso
ouvir tua voz do outro lado
dispersando a chuva
dispersando a mensagem derradeira
de despedida definitiva
minha
sua
nossa elegia de metal
e plástico

VII

tudo será uma lembrança que em
alguma ocasião será retirada do
arquivo-morto de tuas próprias
memórias
das memórias que fazem sol
das orações pretensiosas
que virão com sons na noite
com formas que não sabemos
que partem o coração

VIII

relembraremos nossas conversas
e verei seu rosto novamente
mexendo os lábios
arqueando as sobrancelhas
com a certeza de sua palavra
o peso que ela fez em nós
e que se espalham na recordação
marcada na pele
nossa única certeza de sua
evocação
quase o toque real que haverá
sempre de ser quase

IX

teremos aquela música para
estragar quando tudo se for
nossa impressão de que o tempo
parou ali naquela melodia
ali a roldana não gira
quanta ironia

X

girem
girem
pequenas roldanas encrespadas
pois sempre haverá literatura
pra ser arrancada de sua barbaridade
a inútil promessa de que
chegaremos a algum lugar dentro
da gente
o fim de todas as cidades que
moram dentro de nós

G.C.

Poema sem nome [8]

tu sabes de meu silêncio
senhor de todas as coisas
senhor dos que creem em ti
mas eles não sabem de teu
silêncio ou o ignoram na
espera inútil de teus segredos
espera porca de teus medos
e de teus sonhos infantis

odeias todos teus filhos
e ainda espera deles
os ritos tão inúteis
brinca
isso
brinca com a fé
e traga abandono
miséria
e nisso todos rezarão mais
chorarão mais e entregarão a ti
o registro sério do destino
dos mortos
e o alinhavar dos vivos

o silêncio
precede a fé?

teu silêncio
prece a dor?

e tu que ignoras
teus filhos
na espera dos despertos

tu que não existes
vestido de engodo
por muitos dos supostos
mensageiros de suas leis
leis essas sujas de qualquer
coisa que vai contra o real
amor
a verdadeira fé

e a prece não será atendida
de qualquer jeito
a oração cega de teus
eleitores
engolidos pelo silêncio

[tão terrivelmente só]

G.C.

4.

NOITE DE NATAL

O gesto – mesmo que seja falso – articula uma violação, é como uma rebelião de seu estado anterior. Para mim é puro exílio, pois não sei a verdade de meus propósitos. Tomar o gesto é sempre incompleto para mim, na música que imagino agora não há falhas até o momento do ato. Na história de Jesus há algo disso, onde deus, quando manda seu representante maior, não pode acabar senão pela cruz. Gesto em martírio.

Nas ruas, via a folhagem que o vento levou como braços estendidos, trepidando no asfalto a sua verdade, a sua rebelião, a simplicidade de tudo. E por que não sou assim? Como sinto saudade de quando era pequeno, de como sentia ao sentir todas essas coisas. As horas machucam, regressam umas em cima das outras nas sombras tênues de meu pensamento e, se me volto ao céu para pensar sobre elas, os olhos ardem diante do espetáculo do universo.

A vida é apenas um sonho, um paradoxo, uma rosa ferida e cheia de espinhos. Quisera eu representar uma nova unidade, a maior das incoerências, criar algo factível para os sonhos, ser útil à porra da humanidade, mas sempre posterguei a tentativa, a ideia de fazer algo me magoava, secou como o Natal. Sou ausência, ainda mais nesta data tão triste. Durmo a Memória como a procissão de causas nefandas e infinitas, sudário de uma bebericação de olho fechado. A vida passa como um barco no horizonte.

Aguardo a possibilidade de regresso, esta é minha recordação, talvez seja meu destino. Antigamente, em outros natais, pensava mais nessas coisas e me sentia apavorado, sabendo que certos acontecimentos iriam simplesmente de encontro ao que poderia julgar mais precioso. Encerro-me na data de hoje como um ornamento que colocamos na rua nas datas em que todos fingem felicidade.

G.C.

Poema sem nome [7]

entre a tormenta e os muros
que construí para evitar
qualquer coisa
coloquei você ali
do amor desesperado
feito de palavras
que seduzem a razão
e aliciam os olhos
em busca do toque
dos livros que coloquei na estante
juntos
unidos
em busca da simbiose
que não tivemos
para que se amem
e se atraquem desesperadamente
de uma maneira que nunca
consegui

G.C.