4.

NOITE DE NATAL

O gesto – mesmo que seja falso – articula uma violação, é como uma rebelião de seu estado anterior. Para mim é puro exílio, pois não sei a verdade de meus propósitos. Tomar o gesto é sempre incompleto para mim, na música que imagino agora não há falhas até o momento do ato. Na história de Jesus há algo disso, onde deus, quando manda seu representante maior, não pode acabar senão pela cruz. Gesto em martírio.

Nas ruas, via a folhagem que o vento levou como braços estendidos, trepidando no asfalto a sua verdade, a sua rebelião, a simplicidade de tudo. E por que não sou assim? Como sinto saudade de quando era pequeno, de como sentia ao sentir todas essas coisas. As horas machucam, regressam umas em cima das outras nas sombras tênues de meu pensamento e, se me volto ao céu para pensar sobre elas, os olhos ardem diante do espetáculo do universo.

A vida é apenas um sonho, um paradoxo, uma rosa ferida e cheia de espinhos. Quisera eu representar uma nova unidade, a maior das incoerências, criar algo factível para os sonhos, ser útil à porra da humanidade, mas sempre posterguei a tentativa, a ideia de fazer algo me magoava, secou como o Natal. Sou ausência, ainda mais nesta data tão triste. Durmo a Memória como a procissão de causas nefandas e infinitas, sudário de uma bebericação de olho fechado. A vida passa como um barco no horizonte.

Aguardo a possibilidade de regresso, esta é minha recordação, talvez seja meu destino. Antigamente, em outros natais, pensava mais nessas coisas e me sentia apavorado, sabendo que certos acontecimentos iriam simplesmente de encontro ao que poderia julgar mais precioso. Encerro-me na data de hoje como um ornamento que colocamos na rua nas datas em que todos fingem felicidade.

G.C.

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Poema sem nome [7]

entre a tormenta e os muros
que construí para evitar
qualquer coisa
coloquei você ali
do amor desesperado
feito de palavras
que seduzem a razão
e aliciam os olhos
em busca do toque
dos livros que coloquei na estante
juntos
unidos
em busca da simbiose
que não tivemos
para que se amem
e se atraquem desesperadamente
de uma maneira que nunca
consegui

G.C.

Poema sem nome [6]

rogo à ti
para não morrer
nos vestígios do que fomos
nas memórias com nossos
pés descalços na água

encontro-me no que
não posso ser
perco-me nos locais
que nunca fui
a nuvem
que alimenta
nossos sonhos
que não
foram

meu girassol

G.C.

Poema sem nome [5]

castiga-nos com teu silêncio
com sua bonança inexistente
de esperança

da palavra que não existe
e que fazem a promessa
a colheita
a promessa que nunca fui

e nós
homens
mulheres
burlistas de tua voz
ditando a fé de
tuas migalhas

e em teus olhos que não
existem
não posso mais crer
porque o som da paz
será no silêncio
no silêncio em que não
te seguirei

G.C.

3.

HISTÓRIAS QUE NÃO SÃO CONTADAS

O meu único propósito de vida até hoje foi viver pela covardia. Esse tem sido meu destino, o real sentido das coisas que passam por mim. Talvez nunca tenha tido uma preocupação verdadeira que não fosse meu ser interior. Fugi loucamente da vida, esbatendo-me a cada vez que corria, não podendo jamais esquecer a visão em movimento desses atos. Hoje sinto a verdadeira impotência diante de tudo, das coisas e dos seres.

Até hoje só fiz revoluções dentro da minha cabeça, mas sempre fui covarde para colocar tudo em prática, fui um sonhador de merda. A quem tentou me falar para enfrentar a vida, nunca dei a menor atenção. Pertenço aos que não foram, aos que nunca puderam ser, tenho tudo aquilo que nunca foi meu de verdade, por mais poesia que seja; talvez nunca tenha amado, desejado, vociferado, porra nenhuma. Fui um inaudito, um morto que caminha dentre tantos outros e que nunca pediu que a vida passasse realmente por mim. Quanto ao amor, apenas queria algo verdadeiro, sem egoísmos ou demagogias, mas não posso oferecer ou exigir isso de outros cegos que nem eu. Sinto uma doçura amarga ao escrever mais esta história que nunca é contada, sempre guardada dentro da gente com nojo, com certa vergonha,com a fuga de rechaçar isso para nós mesmos. Seria capaz de amar utopicamente agora.

Essa mania de projetar os sonhos em coisas reais um dia me matará. O correto é fazer o contrário para dentro da gente? Sonhar como se fosse real? Figuras que habitam a terra, as minhas vidas interiores, como se fosse uma procissão, definidas e imperfeitas. Queria morar numa aldeia nos limites de mim, solitário apenas quando fosse necessário, passeando nas paisagens de minha mente, gritando, gesticulando numa felicidade que apenas o sonho pode realizar.

As coisas que nunca foram – essas sim! – são as que mais doem. O amor poderia ser algo assim, pois projetamos algo que jamais acontecerá em tempo real, na suposta realidade. A raiva de não poder pôr as coisas na ordem apenas por covardia, falta de vontade, a sensação de que ficar com a bunda no trono é mais confortável, que os tapas que a vida nos oferece são até suportáveis. Covardia e renúncia num ato lacrimoso, junto de deus, que criou todas as impossibilidades possíveis, só permitiu a mim o ato do sonho, de uma vida que supus, de conversas fantásticas que não tive com ninguém, dos lugares imaginários que frequentei.

Como posso ter em mim a experiência de coisas que na realidade nunca vivi? Talvez eu seja o errado em tudo isso. Talvez eu seja apenas mais um dentre tantos que criaram padrões cretinos para as flores, para o comportamento, para o amor e até para deus. Todas as pessoas nunca existiram, foi minha covardia que as criou, e tudo não passou de sonho, de uma memória guardada com temor, com raiva, medo e vontade de chorar a cada vez que me obrigava a abrir o sonho, a saudade solene com que fito a vida.

Choro por não poder estar de fato aqui, de ser oculto a quase tudo, de me forçar ao ato da análise das coisas que eu mesmo não sei explicar direito. De ver que tudo o que penso pode estar errado, mas será que tenho alguma culpa nisso? Essa incomunicabilidade que me faz sentir tão solitário, o fato de eu estar realmente só dentro do mundo que eu criei e de não ter mais solução. A solidão é incomunicável até mesmo com outros tipos de solidões. É tanta coisa que passa pela minha cabeça que seria incapaz de um raciocínio lógico. Sou incapaz de descrever a solidão, a covardia, de como a solidão é denunciada nos calçadões das grandes cidades, no metrô e nos pontos de ônibus. Toda essa confraternização isolada. É tarde demais para mudar o processo, não seguir mais essas diretrizes provocaria um colapso em nós mesmos, e aí está o motivo da fuga, da violência.

A solidão e a covardia caminham para uma sala vazia aonde todos vão. Ao entenderem tudo, se rechaçam com nojo, com uma leve tristeza, mas ficar com o cu sentado na cadeira parece mais cômodo do que tentar evitar certas dores que a solidão, a covardia e, por fim, a porra da vida. A simplicidade é impossível de ser alcançada diante da própria simplicidade. Homem jamais é capaz de um contato verdadeiro, puro, de acordo com os ajustes que a vida nos impõe e machuca. Por fim, percebo que o homem é incapaz de perceber a próxima pessoa tentando entrar em sua sala vazia, de dar a mão de verdade, sem a contradição. Enfim, essa é mais uma história que não deveria ser contada, em que a vida me maltrata e a minha sensibilidade são fagulhas em meio ao nada.

G.C.

Poema sem nome [4]

somos a traição de nós mesmos
somos descalços para o falso
das ideias despedaçadas de uma moral
duvidosa e cruel
das hordas alheias que maltratam
o pensamento

dos anos que urgem e se proclamam
sempre melhores
porque o homem suporta o peso
do existir e se adapta a isso
porque sempre é possível um
pouco mais
sempre é possível arrancar ou forçar
um pouco mais

sempre um pouco mais
das possibilidades impossíveis
da chuva que cai pra cima
das coronhadas de amor dos pesadelos
da hipocrisia que escandaliza com o amor
e suas pernas quebradas
da paz alçada com sangue
do amor sincronizado com a televisão
e que dá ao amor outra sublimação de amor
e que vira contramão da contramão de amar
e que todos choram e aplaudem como verdadeiro
igual num final de filme em que os dois
ficam juntos

tornamo-nos mártires dessas situações
que viram alento
que viram conforto para mais um dia
com nossas orações aos seres de plástico
de gesso
de elegia floreada num mundo
tonto
vazio
e chinfrim

nossos deuses que dizem o que os
deuses dizem
das mensagens falsificadas
no telefone sem fio
sem origem
sem destino
que panfletam as virtudes
que devemos comprar no celular
com seus ditos e ritos patéticos
de passar o número do cartão
e ter nossas borboletas que amanhã
estarão mortas
e diremos isso para todos
para que consigamos alcançar aquilo
que jamais teremos

sua vida
isso mesmo
sua vida
porque sua vida não é sua
não nesse mundo
porque somos atirados
na nebulosa
que vira misticismo
– destino? –
da enganação de que
vivemos na lama
obra homônima
da tristeza
que é a constatação pura
e simples de que não vivemos

[somos passagens traiçoeiras
que não suportam a ausência]

G.C.

Poema sem nome [3]

a palavra que não vira gesto
que fica presa na boca e nos olhos
e dos olhos que nascem a tristeza
que captamos na escrita
a escrita que faz nascer o
amor como forma de rótulo
de algo que destrói com suas
vertes corrosivas
a nossa consagração do gesto
do amor que fica preso à boca
e que vira uma relíquia do olho

G.C.

Poema sem nome [2]

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão
em mensagens
e-mails
e bilhetes que amassaremos e
que jogaremos em qualquer lugar
e você que amou desde a primeira
mensagem
sua primeira obra de arte
seu livro
sua música
sua pintura
sua dança
e que nunca soube
de fato seu nome
você sempre correu
de volta pra pegar o bilhete
amassado
e não sabia que escrevia
apenas sobre si mesmo
apenas sobre si mesma

e na denúncia precisamos
nos proteger de nós mesmos
e daquilo que não entendemos
e surgirá disso o corte
que deixará os olhos a ermo
registrando mais uma vez
e sempre mais uma vez
a dor e a solidão
de escrever e não ter a resposta
desnudada

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão

G.C.

Poema sem nome [1]

nada pode ser mais silencioso
que o tempo que passa dentro
da gente
sua pedra sobre a lápide
e a sinfonia que vem depois
com o vento
e a lembrança irmã que é
seu som ao tocar as árvores
que fazem os olhos mudar o tempo
e nos faz saltar a luz que perpassava
quieta e fleuma

e o tempo nos agride
e o tempo nos cala
e faz nosso interior
um deus sem seguidores
nas quinas e cantos embolorados
numa órbita apátrida de nós mesmos

e o tempo segue fielmente
calado e sincero
e a vida vai embora
sem som

e o tempo nos cala
e guardamos coisas
dentro da gente
Leuconoe
igual o nosso planeta oculta
o que virá a nos corroer em breve

o tempo e seu silêncio
semelhante às músicas que
ficam na mente
gritam em silêncio
que só é desvendada pelo olho

o tempo que escorre pelo olho
o tempo que escorre pela pele
o amor que escorre na cantiga
cada dia menos cantada
o desespero final que busca
o eco

e sinto dentro de mim
Leuconoe
que não sou filho do tempo
porque o tempo foi um
pai ausente comigo
quando ainda no mais
imerso som que poderia
ser uma vida ou uma
sinfonia
o tempo nos desfez

G.C.

2.

Ser um anônimo nas ruas que não caminham é doloroso. A caminhada para uma violência de outras sensações, vidas, pessoas. Da minha filosofia que afunda terrenos para um pântano que nem eu mesmo sei sair. Acabo por representar o básico, o superficial, para tentar ser apenas mais um e tentar a aceitação do que um dia foi ou talvez possa ser uma vida. E o silêncio sai de minha boca. Sim, porque é preciso. É a única maneira de não perder a beleza infinita do alvorecer. E o anônimo dentro de mim pede a guerra e se cansa do mundo na primeira notícia ruim, porque o céu nessas cenas faz mal aos olhos. Sim, tenho certeza disso. E caminha pelas ruas um anônimo dentro de mim, e dói. Dói porque nunca tive um pai, mas sim mais um silêncio que ninguém sabia. Anônimos, apátridas, todos eles sabem o que são o derramamento de ausências, sons que não existem e a provável poesia disso.

G.C.

1.

Dói saber que a vida é apenas um acaso e sentimos nisso a necessidade de pormos pássaros em nossos céus, que adentram todas as nuvens e voltam para nós para contar tudo que viram num idioma que não conhecemos. E aí aprendemos a como olhar o céu e seus movimentos, suas nuvens e seus pássaros que cortam a imagem danificada pelo acaso. A fábula recheada de imaginação, de ritos, passagens e seres mais mitológicos que o pássaro em seus acasos. E depois de anos evitaremos o espelho porque o amanhã já não pertence mais a gente, mas aos outros que farão a mesma pergunta surrados pelo amor que silencia acasos, pássaros, nuvens ou qualquer outra coisa. Virá então a compreensão e se ela não aparecer você fingirá que entende do mesmo modo, porque palavras envelhecem, acasos também.

G.C.

Tempus Fugit

o adeus sem adeus
onde o mar fere os rochedos
sabe-se que a luta de um homem só
parece inútil
pois as leis com seus homens
e suas balanças determinam
o que pode ser poema ou
apenas uma insignificância
de seu verbo

as lágrimas chegam com seus decretos
com suas vinganças partidas e encerradas
dentro de nossas cabeças
com nosso juízo fundamentado
na incompreensão
na apreensão
nos poemas rabiscados na
parede
no muro
na pele
e que destroem coisas como
tempo
espaço
o relógio que sangra
nossas vidas
em pequenos rubis

destruindo as horas
os dias
os versos
os rochedos

nos cruzamentos das ruas
das pessoas em solidão
quando duas pessoas iguais se olham
ou dão um sinal
as leis deixam de ser inquisidoras
riscam o chão que pisamos com nossas
vaidades tão inúteis
com nossas canções já decoradas
cantadas em comunhão
em choro decorado
em silêncio
pensando que tudo é igual ao que
imaginamos

o mundo é cruel sim
Perséfone
extremamente cruel
quantas mãos que pedem nossos dedos
e que não fazem senão olhar os arquivos
do passado
de como eu mesmo me vejo fazendo isso
quando não respeito meus próprios pensamentos

os segredos do natural
os sonhos em fotografia
o desconhecido que atravessa a rua
e que faz a vida ter um sentido mesmo que breve
do mesmo que temos em nossos livros
do comparecimento ao nosso ponto particular
do espaço na hora exata
que a prosa pede
e que o verso exige

enquanto a eternidade for mortal
o amor estará cercado de números
de inconsistências e de amanhãs abortados
e quando tudo isso for apenas uma coisa
a se listar e calmamente ruir os mais
altos muros
então teremos nosso guarda-chuva
para jogarmos da ponte

G.C.