7.

CANÇÃO ELEGÍACA

Nunca tive notícias do que senti, jamais ouviram meu nome. Estive aqui o tempo inteiro, implorando por lucidez, rastejando uma palavra, falando mal das horas em que a esperança pesava em meu pescoço, como se fosse me enforcar. Tenho apenas uma lembrança do homem que fui, uma lembrança desdita num murmúrio em que prendo a respiração. Pausadamente observo o tempo e procuro a resposta de minhas preces do passado, mas eu não sou mais eu, sou a distância que existe entre melancolia e uma manhã de céu azul acinzentado. Durante muito tempo achei que teria que dizer alguma coisa. Hoje não sinto mais isso, perdi até a vontade de escrever, a vontade de compor. Quero guardar tudo pra mim. Pensei na urgência de ter que expor os sentimentos, na redenção que isso me causaria. Queria chegar aos pés de deus e dizer qualquer coisa, qualquer coisa que fosse última e única.

Durante muito tempo, no metrô, quando o trem saía para a superfície, desligava a música dos ouvidos para ouvir o amanhecer. Pensei na intimidade dos sons para comigo, em como uma imagem mesmo que fodida ou acidentada poderia me levar às lágrimas ou a um suspiro de entendimento com tudo. Por que sou capaz de tantas reflexões sem importância? Por que isso me machuca tanto? Por que sou capaz de debruçar em mim mesmo através dos tempos? Sinto-me jogado pelas ruas, sem nunca ter tido um pai para dar uma palavra de apoio sem que fosse fingido, a tomar o café vagabundo pelas manhãs. Tudo é tão radical, mãe, é tudo tão só que chega a doer. Sinto-me deitado sobre um mundo que não existe e que me surra para a ilusão, que destrinça de um nada atrelado ao nada. A solidão de um texto faz chorar, cada objeto que se contrapõe é um prelúdio para a solidão, para a guerra de mãos dentro do bolso ou das mãos deitadas na mesa de um café barato. É belo, é tão belo ser marginal para imaginar a disponibilidade das pessoas através de tantas impossibilidades, sentir com os dedos a dor escondida de outras pessoas, destas mesmas que são incapazes de relatar a tristeza que sinto. Penso que elas sentem tudo isso e as ignoram com coisas ou atos que para mim não passam de um sono inconsciente. Jamais ouviram meu nome porque sou irredutível e baixo o choro engolido até o chão, porque não posso mostrar aos outros a minha desordem fabulosa, minha histeria que procuro manter silenciosa ou a ternura quase infinita que se lava aos prantos. Sinto por tudo isso, sinto pelo remedo que sou, sinto pelos rostos cortados que me atravessaram.

G.C.

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6.

Até um tempo atrás pensei que poderia mudar o mundo com a arte. Busquei fazer a música ideal para buscar no coração das pessoas essa mudança. Queria poder mostrar uma nova forma de vida, de sentimento, sem a obrigação da moral, do dinheiro ou qualquer coisa mundana. Queria apenas mostrar a maneira com a qual eu vejo o mundo. Agora compadeço: fiz tudo inutilmente. Não apenas não consegui, mas percebi como as pessoas se tornaram mais materialistas, idiotas e insensíveis. Vivi tantos fracassos que meu esforço era pra não morrer pelos socos que a vida me deu e ainda dá diariamente. Agora sei que não posso mudar as pessoas, a única pessoa que posso mudar sou eu mesmo, encontrar algo em mim, algum desejo, alguma necessidade que me faça sonhar em algo realmente belo. Queria poder não olhar pra trás e constatar isso. Então, na música que fiz e que faço, encontrei o que realmente preciso pra mim. Sei agora que músicos não mudam o mundo, mas alguns passam a vida tentando sem conseguir. Bravos! É um fracasso que realmente admiro. Sou um perdedor igual a vocês que tentaram, que nunca se cansam de perder. Desfruto em cada música, sejam minhas ou suas, o meu rotundo fracasso, esquecendo assim as certezas das pessoas mecanizadas que nunca sequer sentiram alguma coisa realmente. A música que corre em mim, esta música que corre em meu coração, esta música que está em mim da cabeça aos pés e me faz dançar sem me mover. Este símbolo patético e inútil que é uma causa heroica, verdadeira e muito importante aos que veem.

G.C.

5.

CAFÉ DO M.

Onde eu estaria se não estivesse aqui no Café? Difícil  pensar nisso. Ficaria triste se não  pensasse nisso como alguém que bate as portas com força para gerar corrente de ar. Onde eu estaria? Discutiria isso com alguém se pudesse e não chegaria a lugar nenhum. Levaria meu corpo pelas ruas até o hospital em frente com meu atestado de loucura.

Engraçado como não gosto de hospitais – pensei – de nenhuma espécie. Vi uma recepcionista com maquiagem barata pedindo um café igual ao meu. As recepcionistas estarão perdidas no mesmo universo que me encontro? Talvez essa corrupção de sentimentos no fundo do copo seja minha real ignorância. Vejo a falta de virtude que me cerca, minha provável herança e condição ao fracasso. Poderia ser diferente?

Não me sinto tão culpado agora. Se todos são cegos, por que eu deveria ter coerência? Mesmo os homens mais cegos tentam informar, sem errar, os caminhos aos que ainda estão entrando na estrada, no Café. Não importa. Sou arrogante? Escrever não tem me servido mais, pois a minha entrega tem se tornado desprezo com os outros. Sinto inveja de quem se tornou algo que não pude ser. Sinto-me um boneco carregado com desleixo por qualquer criança. Poderia escrever mais sobre o aperto que sinto no peito, poderia advertir sobre qualquer tipo de amor, mas do que adiantaria? Poderia divagar sobre os infelizes chistes de alegria ao derramar o açúcar no café. Poderia fazer isso, mas seria para destruí-lo, como sempre fiz.

G.C.

Poema sem nome [9]

I

precisarás do tempo necessário
mesmo que para ti ele seja
infinito e atemporal
o tempo
sim
o tempo com aquelas roldanas
gastas
com nacos arrancados conduzidos
em seu giro eterno
por arame farpado
fazendo nascer a luz dos postes
em que choraremos
e mijaremos a obstinação
pueril e consequente de nossas
quedas

II

tu te curvarás ao espelho procurando
a fenda no rosto
e isso será com urgência
com desespero porque a roldana girou
muito mais do que havia previsto
seu curvar será a subjugação à vida
e nela estará costurada a cicatriz
uma escolha sem poder escolher
como um quadro de Pollock

III

pararás para ler um livro
e dirá que aquilo é literatura
que aquilo é um poema
e o ar será aspirado com mais força
e infinitos estilhaços desses escritos
atravessarão seu coração
e faremos de tudo pra não morrer
nessas palavras

IV

teremos nosso consolo
em qualquer fuga dentro da cidade
o álcool
o fumo
as drogas
os livros
a areia do gato que precisa
ser trocada
mas no fim nos restará alguma coisa
restará uma coisa entre tuas mãos
feridas que ainda correm
que ainda não viraram cinza

V

a voz do outro lado
da aba de trabalho
dirá coisas apenas
que enervarão a polaina
e tu quererás que gire mais rápido
que gire violentamente
até que tudo seja um eco
de uma resposta sem sentido

VI

o recado que chega pelo celular
a mensagem que mudará tudo
ou que será apenas alarme falso
ouvir tua voz do outro lado
dispersando a chuva
dispersando a mensagem derradeira
de despedida definitiva
minha
sua
nossa elegia de metal
e plástico

VII

tudo será uma lembrança que em
alguma ocasião será retirada do
arquivo-morto de tuas próprias
memórias
das memórias que fazem sol
das orações pretensiosas
que virão com sons na noite
com formas que não sabemos
que partem o coração

VIII

relembraremos nossas conversas
e verei seu rosto novamente
mexendo os lábios
arqueando as sobrancelhas
com a certeza de sua palavra
o peso que ela fez em nós
e que se espalham na recordação
marcada na pele
nossa única certeza de sua
evocação
quase o toque real que haverá
sempre de ser quase

IX

teremos aquela música para
estragar quando tudo se for
nossa impressão de que o tempo
parou ali naquela melodia
ali a roldana não gira
quanta ironia

X

girem
girem
pequenas roldanas encrespadas
pois sempre haverá literatura
pra ser arrancada de sua barbaridade
a inútil promessa de que
chegaremos a algum lugar dentro
da gente
o fim de todas as cidades que
moram dentro de nós

G.C.

Poema sem nome [8]

tu sabes de meu silêncio
senhor de todas as coisas
senhor dos que creem em ti
mas eles não sabem de teu
silêncio ou o ignoram na
espera inútil de teus segredos
espera porca de teus medos
e de teus sonhos infantis

odeias todos teus filhos
e ainda espera deles
os ritos tão inúteis
brinca
isso
brinca com a fé
e traga abandono
miséria
e nisso todos rezarão mais
chorarão mais e entregarão a ti
o registro sério do destino
dos mortos
e o alinhavar dos vivos

o silêncio
precede a fé?

teu silêncio
prece a dor?

e tu que ignoras
teus filhos
na espera dos despertos

tu que não existes
vestido de engodo
por muitos dos supostos
mensageiros de suas leis
leis essas sujas de qualquer
coisa que vai contra o real
amor
a verdadeira fé

e a prece não será atendida
de qualquer jeito
a oração cega de teus
eleitores
engolidos pelo silêncio

[tão terrivelmente só]

G.C.

4.

NOITE DE NATAL

O gesto – mesmo que seja falso – articula uma violação, é como uma rebelião de seu estado anterior. Para mim é puro exílio, pois não sei a verdade de meus propósitos. Tomar o gesto é sempre incompleto para mim, na música que imagino agora não há falhas até o momento do ato. Na história de Jesus há algo disso, onde deus, quando manda seu representante maior, não pode acabar senão pela cruz. Gesto em martírio.

Nas ruas, via a folhagem que o vento levou como braços estendidos, trepidando no asfalto a sua verdade, a sua rebelião, a simplicidade de tudo. E por que não sou assim? Como sinto saudade de quando era pequeno, de como sentia ao sentir todas essas coisas. As horas machucam, regressam umas em cima das outras nas sombras tênues de meu pensamento e, se me volto ao céu para pensar sobre elas, os olhos ardem diante do espetáculo do universo.

A vida é apenas um sonho, um paradoxo, uma rosa ferida e cheia de espinhos. Quisera eu representar uma nova unidade, a maior das incoerências, criar algo factível para os sonhos, ser útil à porra da humanidade, mas sempre posterguei a tentativa, a ideia de fazer algo me magoava, secou como o Natal. Sou ausência, ainda mais nesta data tão triste. Durmo a Memória como a procissão de causas nefandas e infinitas, sudário de uma bebericação de olho fechado. A vida passa como um barco no horizonte.

Aguardo a possibilidade de regresso, esta é minha recordação, talvez seja meu destino. Antigamente, em outros natais, pensava mais nessas coisas e me sentia apavorado, sabendo que certos acontecimentos iriam simplesmente de encontro ao que poderia julgar mais precioso. Encerro-me na data de hoje como um ornamento que colocamos na rua nas datas em que todos fingem felicidade.

G.C.

Poema sem nome [7]

entre a tormenta e os muros
que construí para evitar
qualquer coisa
coloquei você ali
do amor desesperado
feito de palavras
que seduzem a razão
e aliciam os olhos
em busca do toque
dos livros que coloquei na estante
juntos
unidos
em busca da simbiose
que não tivemos
para que se amem
e se atraquem desesperadamente
de uma maneira que nunca
consegui

G.C.

Poema sem nome [6]

rogo à ti
para não morrer
nos vestígios do que fomos
nas memórias com nossos
pés descalços na água

encontro-me no que
não posso ser
perco-me nos locais
que nunca fui
a nuvem
que alimenta
nossos sonhos
que não
foram

meu girassol

G.C.

Poema sem nome [5]

castiga-nos com teu silêncio
com sua bonança inexistente
de esperança

da palavra que não existe
e que fazem a promessa
a colheita
a promessa que nunca fui

e nós
homens
mulheres
burlistas de tua voz
ditando a fé de
tuas migalhas

e em teus olhos que não
existem
não posso mais crer
porque o som da paz
será no silêncio
no silêncio em que não
te seguirei

G.C.

3.

HISTÓRIAS QUE NÃO SÃO CONTADAS

O meu único propósito de vida até hoje foi viver pela covardia. Esse tem sido meu destino, o real sentido das coisas que passam por mim. Talvez nunca tenha tido uma preocupação verdadeira que não fosse meu ser interior. Fugi loucamente da vida, esbatendo-me a cada vez que corria, não podendo jamais esquecer a visão em movimento desses atos. Hoje sinto a verdadeira impotência diante de tudo, das coisas e dos seres.

Até hoje só fiz revoluções dentro da minha cabeça, mas sempre fui covarde para colocar tudo em prática, fui um sonhador de merda. A quem tentou me falar para enfrentar a vida, nunca dei a menor atenção. Pertenço aos que não foram, aos que nunca puderam ser, tenho tudo aquilo que nunca foi meu de verdade, por mais poesia que seja; talvez nunca tenha amado, desejado, vociferado, porra nenhuma. Fui um inaudito, um morto que caminha dentre tantos outros e que nunca pediu que a vida passasse realmente por mim. Quanto ao amor, apenas queria algo verdadeiro, sem egoísmos ou demagogias, mas não posso oferecer ou exigir isso de outros cegos que nem eu. Sinto uma doçura amarga ao escrever mais esta história que nunca é contada, sempre guardada dentro da gente com nojo, com certa vergonha,com a fuga de rechaçar isso para nós mesmos. Seria capaz de amar utopicamente agora.

Essa mania de projetar os sonhos em coisas reais um dia me matará. O correto é fazer o contrário para dentro da gente? Sonhar como se fosse real? Figuras que habitam a terra, as minhas vidas interiores, como se fosse uma procissão, definidas e imperfeitas. Queria morar numa aldeia nos limites de mim, solitário apenas quando fosse necessário, passeando nas paisagens de minha mente, gritando, gesticulando numa felicidade que apenas o sonho pode realizar.

As coisas que nunca foram – essas sim! – são as que mais doem. O amor poderia ser algo assim, pois projetamos algo que jamais acontecerá em tempo real, na suposta realidade. A raiva de não poder pôr as coisas na ordem apenas por covardia, falta de vontade, a sensação de que ficar com a bunda no trono é mais confortável, que os tapas que a vida nos oferece são até suportáveis. Covardia e renúncia num ato lacrimoso, junto de deus, que criou todas as impossibilidades possíveis, só permitiu a mim o ato do sonho, de uma vida que supus, de conversas fantásticas que não tive com ninguém, dos lugares imaginários que frequentei.

Como posso ter em mim a experiência de coisas que na realidade nunca vivi? Talvez eu seja o errado em tudo isso. Talvez eu seja apenas mais um dentre tantos que criaram padrões cretinos para as flores, para o comportamento, para o amor e até para deus. Todas as pessoas nunca existiram, foi minha covardia que as criou, e tudo não passou de sonho, de uma memória guardada com temor, com raiva, medo e vontade de chorar a cada vez que me obrigava a abrir o sonho, a saudade solene com que fito a vida.

Choro por não poder estar de fato aqui, de ser oculto a quase tudo, de me forçar ao ato da análise das coisas que eu mesmo não sei explicar direito. De ver que tudo o que penso pode estar errado, mas será que tenho alguma culpa nisso? Essa incomunicabilidade que me faz sentir tão solitário, o fato de eu estar realmente só dentro do mundo que eu criei e de não ter mais solução. A solidão é incomunicável até mesmo com outros tipos de solidões. É tanta coisa que passa pela minha cabeça que seria incapaz de um raciocínio lógico. Sou incapaz de descrever a solidão, a covardia, de como a solidão é denunciada nos calçadões das grandes cidades, no metrô e nos pontos de ônibus. Toda essa confraternização isolada. É tarde demais para mudar o processo, não seguir mais essas diretrizes provocaria um colapso em nós mesmos, e aí está o motivo da fuga, da violência.

A solidão e a covardia caminham para uma sala vazia aonde todos vão. Ao entenderem tudo, se rechaçam com nojo, com uma leve tristeza, mas ficar com o cu sentado na cadeira parece mais cômodo do que tentar evitar certas dores que a solidão, a covardia e, por fim, a porra da vida. A simplicidade é impossível de ser alcançada diante da própria simplicidade. Homem jamais é capaz de um contato verdadeiro, puro, de acordo com os ajustes que a vida nos impõe e machuca. Por fim, percebo que o homem é incapaz de perceber a próxima pessoa tentando entrar em sua sala vazia, de dar a mão de verdade, sem a contradição. Enfim, essa é mais uma história que não deveria ser contada, em que a vida me maltrata e a minha sensibilidade são fagulhas em meio ao nada.

G.C.

Poema sem nome [4]

somos a traição de nós mesmos
somos descalços para o falso
das ideias despedaçadas de uma moral
duvidosa e cruel
das hordas alheias que maltratam
o pensamento

dos anos que urgem e se proclamam
sempre melhores
porque o homem suporta o peso
do existir e se adapta a isso
porque sempre é possível um
pouco mais
sempre é possível arrancar ou forçar
um pouco mais

sempre um pouco mais
das possibilidades impossíveis
da chuva que cai pra cima
das coronhadas de amor dos pesadelos
da hipocrisia que escandaliza com o amor
e suas pernas quebradas
da paz alçada com sangue
do amor sincronizado com a televisão
e que dá ao amor outra sublimação de amor
e que vira contramão da contramão de amar
e que todos choram e aplaudem como verdadeiro
igual num final de filme em que os dois
ficam juntos

tornamo-nos mártires dessas situações
que viram alento
que viram conforto para mais um dia
com nossas orações aos seres de plástico
de gesso
de elegia floreada num mundo
tonto
vazio
e chinfrim

nossos deuses que dizem o que os
deuses dizem
das mensagens falsificadas
no telefone sem fio
sem origem
sem destino
que panfletam as virtudes
que devemos comprar no celular
com seus ditos e ritos patéticos
de passar o número do cartão
e ter nossas borboletas que amanhã
estarão mortas
e diremos isso para todos
para que consigamos alcançar aquilo
que jamais teremos

sua vida
isso mesmo
sua vida
porque sua vida não é sua
não nesse mundo
porque somos atirados
na nebulosa
que vira misticismo
– destino? –
da enganação de que
vivemos na lama
obra homônima
da tristeza
que é a constatação pura
e simples de que não vivemos

[somos passagens traiçoeiras
que não suportam a ausência]

G.C.

Poema sem nome [3]

a palavra que não vira gesto
que fica presa na boca e nos olhos
e dos olhos que nascem a tristeza
que captamos na escrita
a escrita que faz nascer o
amor como forma de rótulo
de algo que destrói com suas
vertes corrosivas
a nossa consagração do gesto
do amor que fica preso à boca
e que vira uma relíquia do olho

G.C.

Poema sem nome [2]

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão
em mensagens
e-mails
e bilhetes que amassaremos e
que jogaremos em qualquer lugar
e você que amou desde a primeira
mensagem
sua primeira obra de arte
seu livro
sua música
sua pintura
sua dança
e que nunca soube
de fato seu nome
você sempre correu
de volta pra pegar o bilhete
amassado
e não sabia que escrevia
apenas sobre si mesmo
apenas sobre si mesma

e na denúncia precisamos
nos proteger de nós mesmos
e daquilo que não entendemos
e surgirá disso o corte
que deixará os olhos a ermo
registrando mais uma vez
e sempre mais uma vez
a dor e a solidão
de escrever e não ter a resposta
desnudada

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão

G.C.

Poema sem nome [1]

nada pode ser mais silencioso
que o tempo que passa dentro
da gente
sua pedra sobre a lápide
e a sinfonia que vem depois
com o vento
e a lembrança irmã que é
seu som ao tocar as árvores
que fazem os olhos mudar o tempo
e nos faz saltar a luz que perpassava
quieta e fleuma

e o tempo nos agride
e o tempo nos cala
e faz nosso interior
um deus sem seguidores
nas quinas e cantos embolorados
numa órbita apátrida de nós mesmos

e o tempo segue fielmente
calado e sincero
e a vida vai embora
sem som

e o tempo nos cala
e guardamos coisas
dentro da gente
Leuconoe
igual o nosso planeta oculta
o que virá a nos corroer em breve

o tempo e seu silêncio
semelhante às músicas que
ficam na mente
gritam em silêncio
que só é desvendada pelo olho

o tempo que escorre pelo olho
o tempo que escorre pela pele
o amor que escorre na cantiga
cada dia menos cantada
o desespero final que busca
o eco

e sinto dentro de mim
Leuconoe
que não sou filho do tempo
porque o tempo foi um
pai ausente comigo
quando ainda no mais
imerso som que poderia
ser uma vida ou uma
sinfonia
o tempo nos desfez

G.C.

2.

Ser um anônimo nas ruas que não caminham é doloroso. A caminhada para uma violência de outras sensações, vidas, pessoas. Da minha filosofia que afunda terrenos para um pântano que nem eu mesmo sei sair. Acabo por representar o básico, o superficial, para tentar ser apenas mais um e tentar a aceitação do que um dia foi ou talvez possa ser uma vida. E o silêncio sai de minha boca. Sim, porque é preciso. É a única maneira de não perder a beleza infinita do alvorecer. E o anônimo dentro de mim pede a guerra e se cansa do mundo na primeira notícia ruim, porque o céu nessas cenas faz mal aos olhos. Sim, tenho certeza disso. E caminha pelas ruas um anônimo dentro de mim, e dói. Dói porque nunca tive um pai, mas sim mais um silêncio que ninguém sabia. Anônimos, apátridas, todos eles sabem o que são o derramamento de ausências, sons que não existem e a provável poesia disso.

G.C.